- Che Guavira - sítio literário

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Da autobiografia não autorizada de Che Guavira
Capítulo 1
De como Che Guavira foi parar no país do cata-vento Aventuras, venturas e desventuras com muita desenvoltura e jogo-de-cintura na terra do livro e do café Foi preciso ir tão longe pra saber o que é café de verdade! Falemos de mulher bonita Calientes bogotanos Os bogotanos têm muito a nos ensinar de solidariedade e calor humano
Ao ler, no Murro das lamentações, que Bogotá é a terra fabulosa dos livros, fui até lá pra conferir.
Já no aeroporto vi que a senha do cartão internacional fora mudada. Corri à delegacia de atendimento ao turista, pra telefonar ao número no verso mas parece que a atendente ligou ao primeiro número, atendimento a outro país, e a ligação caía. Tive de deixar pra resolver na chegada. A novela mexicana do cartão será contada noutro capítulo.
Sorte que tive a idéia de retirar o máximo, 1000 reais, num caixa eletrônico e converter a dólar, o que me deu uma sobrevida enquanto a novela corria. Em Guarulhos fui a um quiosque de câmbio cuja atendente, Márcia Silva, é sósia de minha antiga correspondente chilena Maria Paz. Até a linha divisória do cabelo, mais à esquerda. Só via que não era porque falava português sem sotaque.
A Colômbia é um país cujo mapa tem a forma dum elegante cata-vento. Observando bem se nota que é uma suástica dextrógira, exatamente o oposto da suástica nazista, que é sinistrógira. A suástica dextrógira é um multimilenar símbolo benéfico, de energia vital. Guardar bem este dado, pra conceitos no capítulo 2.

Distância em linha reta Campo Grande–São Paulo: 896km
São Paulo–Bogotá: 4324km. Total: 5220km.
Bogotá fica num altiplano, 2600m acima do nível marinho, por isso é chamada a cidade da eterna primavera. O clima é tal qual o de Campo Grande no inverno. Nos dez dias ali, 14 a 23 de agosto, só fez frio no domingo 17, com finíssima garoa. No restante um frescor agradável, típico clima serrano.
O aeroporto se chama El Dorado, pois lá também tem essa lenda. A lenda do Eldorado é a lenda nacional colombiana. Tanto que o principal museu da capital é o museu do Ouro, onde li, num painel, que o sujeito que era polvilhado de ouro em pó não era simplesmente enfarinhado, como lemos sucintamente na lenda, mas esfolado e banhado com piche ou betume, não me lembro bem, pra aderir o ouro em pó. Não era só enfarinhar de ouro e mergulhar no lago. A coisa era mais cruel. Espécie de versão pré-histórica do trote de dar banho de melado, jogar pluma e fazer dançar a dança do Passarinho.
No Brasil essa lenda também é marcante, sempre presente nas antologias de lenda. Tanto que a palavra eldorado entrou ao português no sentido de terra prometida de imensa riqueza. A expressão Encontrar o eldorado significa Encontrar o mapa da mina. No extremo sul de Mato Grosso do Sul tem uma cidade chamada Eldorado. É um dos sete municípios abaixo do trópico de capricórnio, portanto fora da zona tropical. Fundado em meado de 1954 pelo astrólogo Omar Nunes Cardoso, recebeu o nome Eldorado por ser terra de grande riqueza explorável. Antes de receber esse nome o pequeno povoado se chamava Colônia Velha.
Na Colômbia também tem a lenda da Mãe-dágua (Madre de Agua). Só que a iara colombiana usa cinto-de-castidade!
Tem também a Chorona (La Llorona), que é tipicamente mexicana e que tem até filmes mexicanos com a personagem.
Tem a lenda de Pilcuán, espécie de hércules andino que matou uma serpente emplumada que é uma simbiose de nossa Boitatá com a hidra de Lerna.
E uma infinidade de seres fantasmagóricos do folclore nacional.
As assombrações folclóricas são muito eróticas e nuas, tudo bem retratado nas compilações de lenda. O que mostra que é uma cultura bem menos contaminada pelo puritanismo do branco católico ou ianque, o que a faz imensamente interessante.
No aeroporto a esteira de bagagem é mais moderna, ampla e inclinada. O bom é que não teve, à saída, o pessoal abrindo bagagem, como no Chile. Colômbia 1x0. Parece que lá não tem a paranóia chilena de entrar zoonose ou algo assim.
O carrinho disponível pra pôr a bagagem não é gratuito, custa 2 dólares. Í! Bola fora! O resultado é todo mundo com mala de rodinha.
Também não tem vã coletiva pra ir do aeroporto ao hotel, mas em táxi dá no máximo 25.000 pesos, cerca de 25 reais.
Os chilenos respondem a tudo Djá. Quer dizer sim, pronto, muito bem. Depois do Obrigado, o brasileiro responde De nada. O colombiano costuma responder Con mucho gusto.
E se faz tudo com muito gosto, mesmo. Não precisa muita indicação de restaurante. Ao acaso se acham serviços excelentes. O difícil é cair num mais-ou-menos. Os preços não são altos como aqui e as porções generosas. O atendimento, então, é excelente.
Em São Paulo, em julho, no primeiro restaurante aonde fui, no centro, ganhei uma tremenda dor de barriga que durou dois dias. Só no terceiro dia pude passear sossegado. Nos dez dias em Bogotá experimentei tudo o que aparecia: Restaurantes chiques ou populares, salgadinho em qualquer esquina, e nem um desarranjo. Nada.
Mas pitaia, nada mais que uma variedade de tuna ou figo-da-índia muito melhorado, tem de comer pouco, porque é laxante.
O guanábano é a graviola (Annona muricata). Um fruteiro, com carrinho estacionado na esquina, vendia helado (sorvete) de graviola, a polpa com semente com creme-de-leite, num pote, servindo num copo cuma concha, dando uma colher de plástico. Servia também suco de chontaduro, que é uma pupunha avermelhada.
Outra fruta exótica é o mamoncillo, parecendo uma guavira grande, cuma semente grande, polpa bem amarela e forte sabor adocicado.
Granadilla é um maracujá muito doce e suave. Mora (amora) é grande e azeda.
Guayaba (goiaba), aguacate ou palta (abacate) e piña (abacaxi) são outras frutas comuns cá e lá.
Nem sombra de água-de-coco.
Almocei no excelente restaurante Puerta de la catedral, perto do museu do Ouro. A espiga de milho tem os grãos maiores e mais tenros, dum amarelo mais claro. O feijão também é mais grosso. Sempre uma fatia de abacate acompanha a porção.
Quando cheguei fui jantar num restaurante próximo. Pedi bagre, que foi acompanhado duma porção de arroz, mandioca e batata fritas, limão e uma xicrinha de ají, um molho a vinagrete apimentado muito bom.
Não vi pimenta curtindo em pote de vidro, in natura nem molho vermelho.
Aqueles tubos comumente com quetichupe, pimenta, mostarda, normalmente tem vários. Um parecia ser vinagre mas era muito denso. Era mel! Taí uma surpresa agradável.
Noutros lugares os tubos tinham mostarda, polpa de abacaxi e doutras frutas.
Na área perto do museu do Ouro uma lanchonete anunciando salgadinho mexicano. Uns tubulares. Gostoso e diferente. Algo que o visitante não deve deixar de experimentar. Até agora todas as vezes que experimentei comida mexicana (uma vez tex-mex em Curitiba) valeu a pena.
De salgadinho (no caso, agridocinho) tem a arepa, em forma chata e em forma de bola, que é adocicada, bem sem-graça. Bem bom é a papa, um grande croquete de batata recheado com arroz-carreteiro e ovo cozido, que se destaca nas vitrines parecendo salpicado com quetichupe. No geral são empanadas, nada mais que variações de esfirra. Se usa muito recheio com arroz, charque, ovo e yuca (mandioca).
Já um restaurante galego era quase só batata.
Cuidado pra não pedir a sem-graça batata cozida ao vapor decorada com queijo derretido.
Caí nessa de experimentar os desconhecidos, yuca e papa, tal qual quem chegou ao nordeste e pediu coisas bem exóticas e desconhecidas: Jerimum, aipim e macaxeira.
Quibe frito só vi numa delicatéssen.
Junto aos salgadinhos há ovo cozido. A vendedora descascou um pra mim. Infelizmente o brasileiro tem muito preconceito contra o pão e o ovo. É que a fartura é mãe da frescura...
Coisa estranha é caixa eletrônico na calçada, diante da rua mesmo, aberto, encostado no muro.
Lá também tem muito panfletista de propaganda, distribuindo propaganda de garota-de-programa, estripetise, etc. Numa lanchonete escolhi uns sabores de empanada pra levar. No fundo da sacola tinha um desses panfletinhos eróticos: Chicas complacentes, etc. O pessoal não pode ver a gente andar sozinho e já acha que é turista sexual.
Só achei difícil achar boas barras de chocolate.
Eu estava no sebo Torre de Babel. Enquanto garimpava nos 4 andares mal passava uma hora e alguém vinha de novo com aquela grande taça de chope cum líquido preto tampado com película. Não era cerveja preta mas café.
— Ai! Café? Detesto café. Até o cheiro me enjoa.
Em ocasião assim tomo um pouco. Experimentei aquele café amargo.
— Nham! Mas não é que este treco é bom? É diferente mas é café! Este sim, merece ser cantado naquele samba-enredo do Salgueiro: Gostoso como um beijo de amor.
Que coisa tão diferente do carvão sabor café daqui. É suave, o pó tem cor de chocolate. Comprei um pacote de café gurmê no museu do Ouro. O pó tem cor de amora em pó. Nada a ver com o carvão que conhecemos. No aeroporto os pacotes são mais baratos mas são outros rótulos.
Tive de ir a Bogotá pra saber o que era café. Igualmente nunca gostei de cerveja. Só vi o que era quando experimentei importada. Kaiser, Antarctica, Brahma, etc, nem de graça, pois meu estômago não é lixeira. Um dia experimentei uma latinha de Crystal e cuspi fora. Parecia feita com soro de coalhada!
O Brasil produz excelente café mas exporta tudo. A melhor carne de MS é exportada. Tudo porque o povo é ignorante e nada exigente. Há famílias que proporcionam o melhor aos filhos. Há outras onde o melhor é só pràs visitas...
Tem de exportar o que sobra, e não impingir rebotalho à população.
No fim do primeiro dia de passeio levei um susto ao ver no espelho uma cara tão rubra. Então fui correndo comprar um filtro-solar. Sou reticente a usar isso no rosto, porque ao suar escorre aos olhos e arde. Mas como o clima não fazia suar não tive esse problema.
Quanto aos famigerados efeitos de altitude, nada senti. Parecia estar aqui mesmo.
O hotel Colombia at home, pequenino e simples, sem desjejum nem nome na fachada, é muito organizado. Já na reserva informa o trajeto, preço máximo do percurso em táxi e oferece taxista de confiança pra buscar o hóspede.
O dizer no logotipo já explica o propósito: Se sentir como em casa. E é o que se percebe no atendimento da dona do hotel, dona Stella. Já mora ali pra atender melhor. Parece que seu trabalho é sua vida, paixão, extensão do cotidiano.
O hotel fica bem no costado da igreja Divino Salvador e duma avenida. No lado oposto, a poucas quadras, a avenida 53, que é um longo centro comercial.
A cidade é bonita e a arquitetura variada. Não é só concreto e asfalto e não tem buraco na rua. No máximo uma depressão com o peso dos ônibus sanfonados, pois nas avenidas principais têm muitos desses luiz-gonzagas. Passeando em táxi não se sente o veículo trepidar, pois não é um asfalto sorvete-moreninha todo remendado como aqui. É calçamento pra valer.
Poucas ruas têm nome. É tudo número, o que facilita muito pesquisar na internete e se localizar presencialmente. A disposição é como numa matriz: Linhas, colunas e diagonais. As calles (ruas) são todas paralelas entre si. Idem as carreras (carreiras), paralelas entre si e perpendiculares às ruas. Portanto não há esquina entre duas ruas nem entre duas carreiras, sempre uma rua e uma carreira, diagonal ou avenida.
O bom é que não existe a mania de mudar nome de rua nem ficar puxando saco de celebridade, o que é uma praga no Brasil. Muito bacana e poético o aeroporto se chamar El Dorado, em vez do tremendo mau-gosto doutor fulano beltrano da silva silveira e tal.
Uma página disse que lá tem o maior número de mulher bonita por metro quadrado que o cara já viu. Pode ser mas ainda acho que Curitiba dá de 10x0.
Os caras lá dizem que Medelim tem mais. O atendente do sebo Merlín disse:
— Á! Medelim é melhor. Cáli. Barranquilha, então é demais. Mas Cartagena, uau!, é o máximo!
No sábado, última passada no Torre de Babel, tive de recusar a última oferta de café. Como não tenho hábito de tomar, a cafeína já estava alta no sangue, por isso as fotos tive de tirar várias vezes, pois a mão tremia. Na próxima foto antes e café depois. Mais um pouco e já teria de recorrer às chicas complacentes, hehehehe.
Mas deve ser o café o causador de tal densidade populacional. Fui ver uma caneta lêiser, pois lá não é proibido, e num canto da loja um casal adolescente num tremendo amasso.
— Como son calientes los colombianos!
A culpa é do café, na falta do tereré...
Sobre a excelência do atendimento bogotano, no próximo capítulo.


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