- Che Guavira - sítio literário

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Dom Félix, dono do sebo Torre de Babel, com Michel, sua pupila bolsista, e seu funcionário
Crônicas bogotanas
Da autobiografia não autorizada de Che Guavira
Capítulo 2
Os bogotanos têm muito a nos ensinar de solidariedade e calor humano Choque cultural e ciclo vicioso Sobre chilenos, argentinos e espanhóis Harmonia no trânsito Meu paraíso e o de Borges Livro, pra que te quero?, ler Excesso de bagagem × transportadora
A impressão que deu é dos colombianos estarem um degrau acima no item civilização em alguns aspectos. Nos centros comerciais há banheiro pago. Se paga tipo 50 centavos e se passa uma roleta após a atendente dar um pedaço de papel higiênico. Aperto não é assunto de polícia.
Decerto naquelas bandas ultra-Amazônia a mentalidade do povo é muito diferente. Tive a impressão de que não há aquilo do trabalho como uma maldição, tão arraigado na cultura brasileira, que é escravista por excelência. Nada daquele sentimento de olhar o relógio torcendo pro expediente acabar, chegar logo o fim de semana. Era como se estivesse noutro planeta.
Parece uma terra ainda não contaminada pelos obscurantistas. Se trabalha de bom-humor, com feição sorridente. O trabalho parece ser uma bela parte da vida, não uma maldição da maioria que não ganhou na loteria.
Começo falando do hotel, pequenino, sem fachada indicativa. Fiquei surpreso ao ver que ficaria com a chave, não a entregando à portaria ao sair. Assim o hóspede entra abrindo o segundo portão, pois o da rua não é trancado, a porta da portaria e o quarto.
A dona do hotel me tratou como a um familiar. Foi a fundo pra resolver o problema do cartão e as opções de bagagem. Estava muito preocupada em que eu não pagasse muito caro pra trazer os livros que comprei, cerca de 70kg. Por isso me deu endereços de transportadoras e pesquisou as condições de excesso de bagagem no avião.
Também o taxista, que apenas presta serviço ao hotel, foi muito solidário também nesses dois pontos, e me acompanhou no embarque até o fim.
Em todos os sebo aonde fui, o atendimento não tem aquela indiferença cortês, aquela impessoalidade à qual estamos acostumados. Se percebe um bom-humor e solicitude que encantam.
No final da compra, se irei pegar um táxi, o atendente me ajuda a carregar a caixa várias quadras aonde mais passam os táxis e fica esperando junto, mesmo avisando que não precisa, que pode voltar a seu afazer. E isso não numa mas em todas as lojas.
No sebo Torre de Babel, onde fiquei mais tempo, notei bem os funcionários sorridentes, também entre si, não o sorriso pro cliente. Fiquei horas plácidas ali. Parecia estar hospedado na casa duma família e não comprando num sebo. Muito diferente daqui, onde mais parece um quartel.
No sábado convidei a garota do sebo pra almoçar. (Ai! Já vão os leitores pensando coisas...Bom... Se fosse uma brasileira esse convite já seria uma dificuldade). No final deixou um terço do camarão, pra levar aos colegas provarem.
Aquilo me deixou pensativo. Se fosse aqui, uma brasileira... Impensável. Se o fizesse os colegas diriam que é bobinha, boazinha, tanto nossa cultura está viciosa, cheia de malícia e maldade. Não. Uma brasileira não o faria.
Parece uma irrisória diferença cultural mas o resultado é que tomamos um café que é lixo, nossos empregos são um pesadelo, os políticos só querem tirar vantagem e praticamente tudo o que compramos é falsificado.
Me lembro que muitas vezes no trabalho eu procurava criar um clima de mais coleguismo. Me lembro que levar um quitute de vez em quando não contaminava os outros com a idéia.
Quando estagiário eu estava num clima tão positivo, que ajudava aos colegas, já pegando o que estava no caminho. Uma colega disse Como és bonzinho! naquele tom irônico. Nunca se é um cara lega, gente-fina, sempre bonzinho ou bobinho. Tal é a maldade de nossa cultura viciosa, rançosa, putrefata. O Murro das lamentações está certo.
Me lembro de quando fiz um curso cuja aula era uma vez por semana. Alguns começaram a levar um quitute por vez mas infelizmente éramos poucos os que se dispunham. Mesmo uma colega casada cum dono de frigorífico não se dispôs a entrar na roda. Fiz a conta: Éramos 30. Alguém teria a vez novamente só depois dalguns meses. Mas é como diz aquele provérbio: Basta que um homem seja irracional pra que todos os outros sejam, e o mesmo aconteça ao universo.
Era a isso que se referia o primeiro-ministro chinês, quando disse que é preciso mudar a cultura do povo: À lei de Gérson, ao esnobismo, à malícia e malandragem. Mas infelizmente só uma força externa pode desmanchar esse ciclo vicioso.
Foi minha impressão. Se quem morou lá não concorda, que comente. Postarei aqui.
Nas lanchonetes o atendimento varia. Tem os bem expresso, sem atenção nem simpatia, até os excelentes.
Taxistas há de todo tipo, até dos que não deixam o cliente no endereço exato.
No trânsito poucas diferenças. Não tem essa de quando o carro vira esquina a preferência é do pedestre. E gostam de buzinar. Sempre que abre o sinal e o da frente atrasa 1s, já se dá uma buzinadinha discreta, simples bip. Parece que é cultural. Só pra avisar, caso o outro esteja distraído. E o da frente não se incomoda. Não dá impressão de estresse ou irritação. Nos 10 dias, andando a todo lado, não vi xingamento, irritação, nada. Mesmo nas vias que cruzam as de exclusivamente pedestre, apinhadas de gente, a relação pedestre-motorista é harmoniosa.
Nas amplas calçadas das avenidas centro-comercial tem faixa-ciclovia. Não é como as ciclovias daqui, asfalto, mas uma faixa na calçada mesmo. O pessoal se distrai e acaba andando ali, mas isso também não gera conflito.
No geral o trânsito é como o daqui ou como o do Chile. Não é a zorra do Paraguai. Meu pai, Aydil Peixoto Vargas, foi diretor de trânsito até 1977, da ciretrã daqui, quando aqui era Mato Grosso. Era amigo do cônsul paraguaio, que também morava na vila Alba. O cônsul lhe transmitiu um convite do governo paraguaio pra implantar o sistema daqui lá, e assim organizar o trânsito paraguaio. O comando de Cuiabá, com inveja porque o convite foi feito diretamente, não deixou. Por isso o trânsito paraguaio é assim até hoje.
Conversando com o funcionário dum sebo lá: Ai!, mas argentino... Apertou os lábios e balançou a cabeça, naquele gesto de desgosto.
Ainda não encontrei quem diga gostar dos argentinos. Talvez em Buenos Aires se encontre.
Almoçando no La gran comida criolla (Esse recomendo e quero voltar), especialidade em comida típica colombiana, pescado e marisco, rua 15 10-16, uma senhora pediu licença pra ficar na mesma mesa, pois faltava lugar. Disse que a comida colombiana é muito farta. A mesma idéia de dona Adriana, de que os peruanos são os que melhor falam o castelhano. Não sei se é um estereótipo, tipo de que o maranhense fala melhor o português. Que os espanhóis são muito grosseiros, falam muito palavrão. Que os chilenos são muito arrogantes.
Bom... Dos amigos chilenos não diria, mas... arrogante conheço uma.
Do restaurante Saint Just, bem recomendado na internete, bom mas não me encantou. Comida francesa, atendentes bilíngües (castelhano-inglês). Pra comida francesa esse foi excelente, porque comida francesa consiste em cortar umas rodelas de tomate, jogar um patê encima, enfeitar cuma folha de menta e outra coentro e uns grãos de ervilha mais uns fios de cenoura e beterraba e se cobra um preço astronômico. Comida francesa é pura firula.
Cadê o latim, grego, aramaico, francês? Até o alemão já ascendeu a língua mundial. Logo esse maldito inglês sairá de moda, pois, Iazul!, tudo passa!
Diz que Borges concebeu o éden como uma biblioteca infinita. Eu diria um sebo infinito.
Passar o dia num sebo gigantesco e uma garota bonita trazendo café (Claro, se fosse tereré seria melhor). Isso é o Paraíso!
Pedi café com aroma de mulher (Café com aroma de mulher é o nome da famosa telenovela colombiana).
Eu nunca chegava aos maiores sebos porque não parava de encontrar os menores no caminho. Como em São Paulo, eu nunca chegava ao Messias porque ia parando nos outros no caminho. No centro, perto do museu do Ouro, sebos em toda parte, um ao lado do outro, sem falar nos camelôs estendendo livro sobre pano na calçada. Impossível visitar todos em dez dias. Os maiores, Torre de Babel e Merlín, com três andares. No quarto do Torre de Babel é o depósito.
Cheguei ao Torre de Babel porque estava no Feira do livro, que é de sua sócia, que me remeteu diretamente até lá.
No Messias o pessoal atende com cortesia fria e distante. Me apresentei como cliente que compra sempre via internete-correio, por isso tenho cadastro e quero enviar os livros via correio. O dono nem me olhou na cara. Parecia atender a um pedinte. Na rampa ao subsolo um aviso de entrada só pra funcionário.
No Torre de Babel o dono parecia receber um velho amigo. Me mostrou, andar a andar, as estantes com os respectivos temas. Mal passava duas horas e vinha a garota com a baita taça de chope com café fumegante. E não tem área restrita. Pude garimpar livremente até no depósito.
Nos andares desse sebo há no fundo espelhos do tamanho duma porta, tão bem polidos, que dão a impressão que a sala continua. Era só me distrair e quase trombava nesses espelhos.
O mesmo clima nos outros sebos. Uma simpatia natural, muito diferente de sorriso de vendedor.
No sábado, quando em segunda vez no Torre de Babel, o dono mostrou a mim um livro de medicina de 1700 e lá-vai-pedrada, dizendo Este livro vale 3600 dólares! Mais tarde, via telefone, explicou, a uma cliente, que os livro técnico velho não tem mercado porque estão superados, exceto os muito antigos, pelo valor histórico.
Depois chegou sua sócia acompanhada duma adolescente. Disse:
— Aqui temos a universidade dos Andes, que é a mais prestigiosa, cara e concorrida do país e que concede bolsas a estudantes que se destacam. Consegui uma bolsa pruma dessas estudantes, que é esta garota.
A uma mesa e lousa portátil um professor ensinava trigonometria à garota.
Sem dúvida: O livreiro não é do tipo vendedor de parafuso.
No hotel, um chileno disse que no Chile o imposto sobre os livros é muito alto. Deve ser por isso que nas torres de Tajamar são caríssimos.
Felizmente temos erva-mate de qualidade. Por isso ainda vale a pena tomar tereré. Mas com a Coca-cola comprando tudo pra fazer seu triste mate gelado, o preço subiu e logo a erva fará mal à saúde. Cada um que plante sua árvore.
Nas transportadoras o valor pra trazer 25kg de livro é de cerca de 800 mil pesos, cerca de R$ 963. mais que o valor da compra.
A condição do excesso de bagagem Lan é muito confusa, tanto na internete quanto perguntando no aeroporto. Parecem fazer questão de deixar confuso. Uns diziam que um pacote não poderia passar de 50kg mas na hora de embarcar diziam que melhor seria um só pacote. Isso porque foi insistentemente pesquisado. No fim o excesso, cerca de 70kg, custou 395.050 pesos, cerca de R$ 475,50. Imagines o quanto seria via transportadora!
Estranho na nota não aparecer o peso.
Na esteira recebi muita ajuda pra lidar com as caixas. Em Guarulhos um funcionário, vendo as caixas enormes, ajeitou uma conexão imediata, evitando muitas horas de espera. E o taxista também tinha espírito bogotano.
Talvez essa diferença cultural não seja tão grande assim.
 Quanto às aeromoças, comissárias, etc. Não entendo por que dentro do avião são tudo sorriso e mesura mas no balcão, quanta diferença! Parece que tomaram sorvete de chiclete. Ô mulherada mal-amada!


Um comentário:

  1. que cronica!!!!
    completa!!!!
    muito bem escrita,me vi là também !!
    abraços

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