- Che Guavira - sítio literário

terça-feira, 21 de outubro de 2014

Crônicas bogotanas medelinenses
Da autobiografia não autorizada de Che Guavira
Capítulo 3
 A novela mexicana, ou melhor, colombiana da senha do cartão Achas que é uma maravilha a ligação gratuita? Pois vejas só Café no isopor! Um alegre passeio na serra A lindíssima Medelim O sósia de Suassuna Fim da breve visita Itagüi é topônimo tupi
Na ida, já no aeroporto, a senha do cartão internacional não funcionou. Corri à delegacia de atendimento ao turista. A atendente telefonou ao número de atendimento no verso do cartão mas a ligação caía. Só depois me toquei de que deve ter ligado ao primeiro número, sem olhar que era pra atendimento noutro país. Então resolvi ligar do hotel, pois se era só senha seria coisa trivial.
Como socorro retirei 1000 reais no caixa eletrônico e troquei por dólar numa casa de câmbio, pra trocar por peso colombiano lá.
Dona Stella, a dona do hotel, disse que seu irmão, dom Germán, sócio, é quem costumava resolver problema com cartão. Que na manhã seguinte o faria.
Mas dom Germán teve de viajar e não o vi nessa estadia.
No verso do cartão não havia número pra atendimento na Colômbia. Portanto a opção seria outros países.
Do hotel não poderia ligar, pois ali ligação internacional é bloqueada no sistema. Na esquina à esquerda, virando à direita até a outra esquina transversal tem uma casa telefônica e interneteria. O número não completava.
No dia seguinte fui a uma loja da Western Union, num centro comercial perto. Nada. Que não era ali, não tinha como, não sabia informar...
Na interneteria mandei imeio à Treviso, operadora do cartão. A resposta chegou depois de solucionado.
A hoteleira encontrou um número que seria um atendimento. Fui à interneteria mas a ligação dava mensagem de número que não existe. Voltei ao hotel. O número existe. Decerto tentei ligação internacional quando era local. Voltei. De novo não deu. E assim cinco vezes, cada vez com novo porém. Nada.
Liguei ao amigo Ramão, pra se informar no Brasil. Deu vários números que forneceram. Mas eu não conseguia ligar porque eram 0800 e 1800, ligação gratuita, e a interneteria bloqueia ligação gratuita porque tem uma cota pra vender ligação, não pode desperdiçar cota com ligação gratuita.
A ligação gratuita, que teoricamente seria um imenso benefício, em viagem se torna um estorvo, porque tanto hotel como casa telefônica bloqueiam. Um porque é ligação internacional, o outro porque é gratuita.
Eu teria de ligar da casa de alguém, dum morador.
Como tinha de pagar o hotel a hoteleira sugeriu um depósito. Assim Ramão faria um depósito a meu cartão. Pra isso escaneou meu cartão e minha identidade. Então a atendente do cartão disse que não é assim a identidade, que tem um chipe, e anexou ao imeio uma figura da identidade duma brasileira como exemplo. Assim mixou a opção do depósito.
Eu disse que não tem chipe, que se tivesse ficaria sabendo. Que só se implantou agora, porque minha identidade é do ano passado. E como passaria no aeroporto se não valesse?
Quando cheguei de volta fui me informar e enviei imeio à hoteleira, informando que não existe. O chipe será implantando. Só há alguns como teste.
Na noite o sócio, senhor Germán, me chamou a uma conversa à tela do computador e pediu garantia de pagamento. Certamente a preocupação foi por causa do chipe e do cartão que nunca se resolve.
Na sexta-feira na noite já tinha como última solução apelar à embaixada. Seria só na terça, porque na segunda era feriado nacional. Se informaram de que a embaixada abre no sábado no fim de tarde. Mas o taxista do hotel não apareceu. Ficou claro que tentavam evitar a solução via embaixada, vendo se resolvia antes.
Mas no sábado Ramão conseguiu contatar com a Treviso, depois de falar cuma atendente que não quis saber, conseguiu com outro. Fui chamado ao celular da hoteleira, onde um sujeito com sotaque português foi fazendo as perguntas-chave e eu tinha de ir digitando os números do cartão e as opções. Acontece que no celular apareciam as opções que teclei mas decerto era incompatível com o sistema deles. De modo que mesmo aparecendo o número teclado na tela, ouvia mensagem de opção errada.
A hoteleira disse:
— Calma. Não fiques nervoso. Tem de ir fazendo com calma.
Eu explicava que não era isso. Era o sistema que ignorava os números teclados.
Liguei a Ramão e pedi a ligar de novo, vendo se tem um endereço pra eu ir pessoalmente. Não tem.
No domingo nova ligação, nessa vez com sotaque brasileiro. Tudo igual. Avisei que não adianta teclar os números, pois o sistema é incompatível com o do celular. Então após as perguntas-chave avisou pra não teclar, que passaria tudo direto.
Assim fui ouvindo as mensagens de opção, aguardei, foram caindo, passando a diante, até ouvir a senha.
Ufa! Acabou a novela.
Que sabor teve a primeira compra!
Na quinta-feira, 21, dei uma esticada até Medelim. Já que estava perto fui passar um dia, pra conhecer o amigo Carlos Molina, antigo correspondente, pois se não fizer assim os anos passam e ninguém se encontra.
A viagem em terra Bogotá-Medelim (mnemonicamente tobogã-medalhinha) é muito mais demorada que a distância supõe, por ser área montanhosa. 404km em 8h ou 9h, imaginem! Deve ser uma paisagem e tanto, mas fica prà próxima curtir a paisagem. Fui em avião.
A idéia era ir e voltar no mesmo dia, como costumeiro quando se vai a Ponta Porã. Mas a volta daria poucas horas. Ainda mais que a distância do aeroporto a Medelim é grande. Optei voltar na manhã do dia seguinte.
Na ida mais um percalço. Como no bilhete da Edestinos, que imprimi, a viagem no Brasil consta a hora de embarque, nunca perdi vôo aqui. Mas lá a hora impressa é a do vôo, não a do embarque! O que me interessa a hora do vôo? O que interessa é a do embarque. Não podiam encaixar noutro vôo porque dizem que estava tudo lotado, mas pagando a taxa a vaga aparece. Assim, em vez do vôo das 7h fui no das 10h.
No avião serviram café em copo de isopor com colherinha de plástico! Ao descer entreguei a uma comissária, dizendo que esses materiais não podem conter líquido quente, pois são tóxicos.
No aeroporto encontrei Carlos, um sem saber a fisionomia do outro. Sorte que não havia multidão. De cara me lembrou senhor O’Hara de Karatê Kid, embora nada tenha de japonês.
Fomos a um jipe Land-Hover, onde sua esposa, Margarita, nos esperava, e Carlos se jogou na traseira. O esporte do casal é caminhada, escalada, passeios ecológicos desse tipo, daí o jipe.
Dona Margarita ao volante, um percurso de meia hora numa paisagem deslumbrante e cheia de curva, com paredões e densa mata nos dois lados, que lembra muito a serra catarinense. Um posto de pedágio no meio do percurso. A cidade despontou num vale abaixo, o que na serra catarinense corresponderia ao mar.
 A casa decorada com bom-gosto, com pingentes sonoros, um aquário seco. A garagem do jipe é a sala-de-visita. Cada um molda sua casa conforme seus hábitos. Nada mais natural que tenham o jipe no meio da sala, o que deu um toque rústico.
 
Após a troca dos presentes fomos almoçar num restaurante próximo. No começo da tarde um passeio na praça central, onde tem uma maria-fumaça preta como monumento, bibliotecas, algumas estátuas metálicas representando figuras típicas e uma gigantesca estátua de concreto em forma de painel, mostrando os aspectos da colonização.


O guarda de plantão ali, muito culto, deu um histórico geral da feitura do painel, o que significava cada cena.
Medelim não se parece com Bogotá. É ainda mais linda, porque a beleza está na paisagem, não só na arquitetura. E é mais quente, pois em menor altitude. Bogotá é mais são-paulo, uma sampa melhorada, sem prédio alto. Medelim seria a gramado colombiana. Como Campo Grande é a cidade morena, Cuiabá a cidade branca, Medelim é chamada a capital da montanha.
Na praça ficamos esperando a filha de Carlos, e logo mais o genro nos apanhou de carro.
Carlos perguntava à filha onde irmos, pois estava preocupado em me fazer passear Eu disse: Mas a vinda na estrada serrana, no jipe, com estupenda paisagem, já não foi um magnífico passeio? Quantos pagariam caro um passeio assim!
Eu queria deixar claro que não fui passear em Medelim. Só uma esticada pra conhecer Carlos. Um dia corrido daria o mínimo de interferência em seu cotidiano.
No caminho falamos sobre os topônimos tupis. Logo vimos um ônibus ostentando o letreiro Itagüí, uma cidade próxima. Eu disse:
— Mas esse nome é nitidamente tupi!
Fim de tarde, decidiram ir ao museu que foi a casa do escritor local Fernando González, que achei sósia de Ariano Suassuna. Tipo uma sede campestre, estacionamento chão de terra sob as árvores e mesas com guarda-sol. No museu livros desse autor a venda. Carlos me deu Los negroides (Ensayo sobre la Gran Colombia, 1936).
 
Adeene neles!
Carlos se espantou quando perguntei se tinha ascendência japonesa. Um amigo japonês aqui uma vez disse que deixaria pra me receber no outro dia porque naquele chegaria sua filha e o genro, que ficaria dividido tentando atender duas visitas. Pois é. Se Carlos fosse japonês eu não estaria à mesa consigo, esposa, filha e genro. Se encontraria comigo noutro dia. Disse:
— Digo, sem ter certeza, que pertenço aos nutabes. Se bem que devo ser mistura de indígenas e espanhóis. E, segundo Mário Jorge, de japonês também.
Passamos o fim de noite conversando, sentados na soleira da porta, na calçada, sobre as coisas da terra, a angústia e esperança de solucionar a guerrilha, o clima, a beleza da serra.
Fui dormir. Na verdade apenas me estirei sobre a cama, sem mexer nela, vestido, pronto pra ir. Na madrugada me chamou. O táxi estava à porta, rumo ao aeroporto. Vôo de volta sem café no isopor.
Assim foi a viagem ao país do cata-vento e das maravilhas. Viagem de sonho, inesquecível.
Apêndice
Itagüi é topônimo tupi
Os tupis estiveram na Colômbia central. A figura tirei de
Los tupís estuvieron en Colombia central. La figura saqué de
Concluí que o topônimo da cidade de Itagüi é de origem tupi.
Concluí que el topónimo de la ciudad de Itagüí es de origen tupí
Os tupis tiveram presença e influência no território colombiano muito maior do que se pensa. Vejamos uns detalhes:
Los tupís tuvieron presencia y influencia nel territorio colombiano mucho más de lo que se piensa. Veamos unos detalles:
Segundo Carlos, alguns lugares ali se chamam Tupinamba.
Según Carlos, algunos sitios allí se llaman Tupinamba.
Também vários hotéis e uma canção da dupla Lara e Acosta.
También varios hoteles y una canción del dueto Lara y Acosta.

 No folclore colombiano tem a sereia do arco (sirena del arco), que é uma sereia com máscara, na verdade um antifaz, vermelho, o que seria muito estranho. Mas fica óbvia a origem. É a pintura de urucum, tradicional dos tupis.
Nel folclor colombiano hay la sirena del arco, que es una sirena con máscara, en verdad un antifaz, rojo, lo que sería muy extraño. Pero queda obvio el origen. Es la pintura de urucún, tradicional de los tupís.
O topônimo Itaguaí tem origem na antiga língua tupi e significa rio da enseada da pedra, através da junção dos termos itá (pedra), cuá (enseada) e y (água)
El topónimo Itaguaí tiene origen en la antigua lengua tupí y significa río de la ensenada de la piedra, a través de la junción de los términos itá (piedra), cuá (ensenada) e y (agua)
Minha tia Cecília Figueiredo, que é paraguaia e fala guarani, confirmou:
Mi tía Cecilia Figueiredo, que es paraguaya y habla guaraní, confirmó:
Itagüi (pedra embaixo), güi (embaixo)
Itagüi (piedra embajo), güi (embajo)

O trecho retirado do endereço acima discute a etimologia de Itagüi. Os eruditos estão equivocados.
El trecho retirado del sitio arriba discute la etimología de Itagüí. Los eruditos están equivocados.
 (Abaixo, tradução do trecho em questão)
Uno de los mitos que son soporte de la historiografía tradicional nel municipio de Itagüí consiste en afirmar la existencia de una tribu indígena llamada Bitagüí con su cacique Bitagüí. Sin embargo, en ninguna de las crónicas aparece el nombre de ese cacique o tribu. Muchas de las nominaciones que los españoles adaptaban de 1os indígenas, para las atribuir a un lugar, provenían de confusiones lingüísticas que se daban nel encuentro. El primer saludo o la primera palabra agresiva era entendido y adoptado, atribuyendo significados distintos a los originales y permitiendo se transformar a través del tiempo. Ese fue el caso de la palabra muisca, que, según Graciliano Arcila, significaba blanco y terminó siendo atribuida a las culturas indígenas de las tierras altas de Cundinamarca y Boyacá. Puede pues el nombre Itagüí provenir de cualquier parte, y aunque en algunos estudios se intenta, por ejemplo, buscar palabras catías (Itahui: Evitar, dejar en paz, apartar, abandonar) o chibchas (Ytiquyn: Dedo de la mano), esos estudios empero no se hicieron con rigurosidad científica suficiente y con base en estudios comparativos antropológicos, arqueológicos, lingüísticos o históricos que permitan demostrar que en esa época de la conquista y principio de la colonia existía ya el nombre de Itagüí. Los hallazgos arqueológicos y, en muchos casos, la guaquería realizada en Itagüí, hablan de la existencia de asentamientos indígenas en la zona, pero no se dio importancia a la investigación y al estudio riguroso de esos vestigios.
Um dos mitos que são suporte da historiografia tradicional no município de Itagüi consiste em afirmar a existência duma tribo indígena chamada Bitagüi com seu cacique Bitagüi. Mas em nenhuma crônica aparece o nome desse cacique ou tribo. Muitas das denominações que os espanhóis adaptavam dos indígenas, pràs atribuir a um lugar, provinham de confusões lingüísticas que ocorriam no encontro. O primeiro cumprimento ou a primeira palavra agressiva era entendido e adotado, atribuindo significados diferentes dos originais e permitindo se transformar através do tempo. Esse foi o caso da palavra muisca, que, segundo Graciliano Arcila, significava branco e terminou sendo atribuída às culturas indígenas das terras altas de Cundinamarca e Boiacá. Então o nome Itagüí pode provir de qualquer parte, e se bem que nalguns estudos se tenta, por exemplo, buscar palavras catias (Itahui: Evitar, deixar em paz, apartar, abandonar) o chibchas (Ytiquyn: Dedo da mão), mas esses estudos não foram feitos com rigor científico suficiente e com base em estudos comparativos antropológicos, arqueológicos, lingüísticos ou históricos que permitam demonstrar que nessa época da conquista e princípio da colônia já existia o nome de Itagüí. Os achados arqueológicos e, em muitos casos, o garimpo realizado em Itagüí, falam da existência de assentamentos indígenas na zona, mas não se deu importância à investigação e ao estudo rigoroso desses vestígios.


Um comentário:

  1. Que sufoco! Fiquei com pena do amigo Che. Dava impressão que eu estava
    no lugar dele.
    Em minha próxima viagem à California de Roy Rogers, Tom Mix, Rocky lane
    vou levar as "verdinhas"
    Mais confiável. Sem problema!

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