- Che Guavira - sítio literário

sábado, 9 de julho de 2016

À coleção Adeene neles!
A postagem fica duplicada toda vez que é editada. Toda vez que esses trapa, quero dizer, programadores mexem pra melhorar algo pioram outralgo.
 
Tião Macalé & Ciª


Sílvio Mause

 Lampadinha – Bic


Humberto de Campos – Lampião


Cande Tinelli – Wanessa Camargo


Christopher Walken – David Bowie


Ken Levine – Murilo Rosa


Lovecraft, 06.1934 – Stückelberg, Londres, 1934


Nicolas Cage – Eusebio Poncela


Ramão Pontes – Ramão rico?
Topônimos, tropeçônimos e trapalhônimos
No tempo das entradas e bandeiras a língua geral do Brasil era o tupi. O nheengatu, língua desenvolvida a partir do tupinambá, falada ao longo de todo o vale amazônico brasileiro até a fronteira com o Peru, na Colômbia e na Venezuela, a língua geral amazônica. O tupinambá e dialetos tupis eram a língua geral do Brasil, que seria bilíngüe como o Paraguai (que manteve o guarani, língua-irmã do tupi) se não fosse um decreto lusitano impondo o português.
Avaliemos a extensão dessa perda.
Minha mãe e tias maternas são paraguaias, de Belém, um vilarejo interiorano. Minha avó pouco falava castelhano, quase só guarani. Meu pai, descendentes de gaúchos, natural de Amambai, como funcionário da malária, a CEM (campanha de erradicação da malária) viajava todo o velho Mato Grosso (que incluía o atual Mato Grosso do Sul, então sul de Mato Grosso) e conhecia bem o guarani, disse que se usavam duas formas pra verificar se o sujeito sabia guarani mesmo: Mandar dizer Guaíra e O galo cantou, em guarani. Guaíra tem de dizer guairá. O galo cantou tem de dizer Sapucai tocoroó. Se disser Gallo sapucai, é jupará, hibridação castelhano-guarani.
Na verdade o que se ouve no Paraguai, seja na rua ou emissão radiofônica, não é guarani propriamente mas jupará, que é uma mistura. O linguajar guarani todo entremeado de vocábulos castelhanos porque as palavras sem correspondente em guarani, especialmente os neologismos, são expressos em castelhano, tal qual nossos afrescalhadíssimos intelectuais (ou intelectualóides) que abusam de barbarismo, porque acham muito chique grafias e pronúncias exóticas, mesmo quando o vocábulo próprio existe.
Minha mãe usava português como língua do cotidiano. Quando ficava saudosa e lírica recitava poemas de Manuel Ortiz Guerrero, seu poeta predileto, em castelhano. Quando, em suas freqüentes, onipresentes e homéricas mudanças de humor, ficava brava, xingava em guarani. Por isso nunca aprendi guarani. Me parecia feio, repugnante. Eu praticamente só conhecia os vocábulos de xingamento, palavrão mesmo. Safadoreicôva, mitaí tepoti, anha meúme guaré, tererrô te cacá iguapy riare, retovado Cleto poncho… De modo que ao ouvir uma canção entendo uns e outros pedaços, uma palavra aqui, outra ali.
Mamãe dava uns foras fazendo comentário jocoso diante dalguém, achando que não entenderia, como eu comprando guavira das índias do Mercadão. Um comentário meio assim Esse aí é exigente demais. No fim me despedi cum Porã etê ndê guavirá, che cunhá mi (Bonito demais tua guavira, minha senhora).
O guarani é muito parecido ao tupi, meio como português e castelhano ou sueco e norueguês. Diz que na fronteira um sueco no alto da montanha em sueco e o outro responde, no outro lado, em norueguês. Há muitos dialetos do tupi, o que seria de se esperar em território tão grande e sem telecomunicação.
É preciso esclarecer que não existe língua tupi-guarani. Tupi é uma língua, guarani é outra, embora tão parecidas. Assim como não existe língua servo-croata. Se falava em cultura servo-croata, comunidade servo-croata, mas língua não. Se fala em cultura tupi-guarani porque são afins, mas língua tupi-guarani não existe. Assim aquela canção Paraguaia do grupo Os atuais , Em português direi te amo e responderás em tupi-guarani…
De modo que em nossa família os topônimos tupis soavam muito familiares. Onde aparece ita pode saber que tem pedra, porque itá em tupi e em guarani é pedra (Itá, Itajá, Itajaí, Itaguaí, Itamaracá, Itamarati, Itaguaçu…). Onde aparece pira tem peixe, porque pirá é peixe (Piracicaba, Piraí, Pirapora…). Onde tem tuba (tyba, que virou tuba ora tiba, a famigerada confulência y→u) é o sufixo português al. Caraguatatuba, mata de caraguatá; Ubatuba, mata de ubá, ubarizal; Curitiba, mata de pinheiro, pinheiral.
Em 1995 fui com meu pai a Porto Seguro. Os guias explicando que Taperapuã significa casa do caranguejo.
— Peraí! Minha mãe e tias são paraguaias, temos muitos amigos paraguaios, meu pai aqui conhece guarani muito bem. Esses topônimos são muito familiares pra nós. Portanto percebi que estais inventando. Não tem caranguejo nessa história. Tapera é tapera mesmo, casa rústica, casebre, mas puã é ereto, levantado ou levantando (já que em tupi e guarani não há tempo verbal). É tapera construída, erigida. Em Mato Grosso do Sul tem uma cidade chamada Camapuã. Tem um morro que originou o nome, que parece um seio apontado ao alto. Dali o nome camá puã.
Se com turismo globalizado dão esses foras. Na internete então…
Cerca da mesma época vi no jornal Hoje mostrando a praia de Itapuã, dizendo que significa pedra que soa! Nitidamente se viam paralelepípedos de pedra, em pé, como gigantescas peças de dominó. Pedra que soa é Itamaracá.
Como numa revista turística onde uma receita de sopa paraguaia levava farinha de trigo. Ou quando comi uma chipa-guaçu na festa das nações aqui. Aquilo não se parecia muito com chipa guaçu. Abortei logo a idéia de experimentar paelha, etc.
Aqui na vila Palmira, meu terreno de esquina abarca a rua se chama Guiratinga. O nome meio deformado. Güirá é pássaro, tinga é branco, claro. Os reformistas do idioma chutaram o trema como os astrô-momos fizeram a Plutão. No futuro não se saberá se pronuncia anhangüéra, anhangüêra, anhanghéra ou anhanghêra. Confusão igual de quando tiraram o circunflexo: Abrôlho, que é um espinho, virou abrólho, de abre-olhos, mais um topônimo inventado. O circunflexo que se cuide. Logo tentarão acabar consigo.
Güirá (em guarani) é uirá em tupi, pássaro. Uirapuru é algo pássaro. Mas puru virou uma confusão. Basta pesquisar pra constatar que cada um diz uma coisa. Apesar de hesitante, a melhor é http://basilio.fundaj.gov.br/pesquisaescolar/index.php?option=com_content&view=article&id=168%3Auirapuru&catid=55%3Aletra-u&Itemid=1, e a pior é http://www.dicionariotupiguarani.com.br/.
Aqui perto tem a rua Abiurena. Mas o quê é isso?! Eta corruptela! Rana é um sufixo tupi e guarani que corresponde ao prefixo grego pseudo. Abiurana, falso abiu (pseudoabiu), canarana, falsa cana (pseudocana), cajarana, falso cajá (pseudocajá), caferana, (falso café, que é um arbusto com doce fruto vermelho, mas tem a erva que também chamam caferana)… O famoso romance Sagarana ganhou esse nome porque seria uma pseudo-saga.
A corruptela capital é itamarati. Moroti é branco. Itamoroti é pedra branca. Como Fernando de Noronha que originariamente era Fernão de Loronha. É só pesquisar pra constatar que nalguns lugares se diz outra coisa.
Mas moroti é pra denominar o homem branco, pois a palavra pra branco é tinga. Assim como cambá denomina o homem negro, e a palavra pra negro é um (que vira uma confusão com a transliteração y→u).
A confusão recrudesceu por causa da característica tonal do guarani. Além do i tem o i gutural, parecido ao u do francês buffet, grafado y. Só que em buffet se faz biquinho pra pronunciar, em poty é entrelábios. I significa pequeno, y é água. Poti (pronuncia potí) é merda, poty é flor. Alguém definiu poty pronunciando pot com a sílaba tônica no T.
Na telenovela Irmãos coragem tinha a índia Potira. Jamais um índio chamaria sua filha de Potira.
Iguaçu vem de y guaçu, água grande. Se fosse i guaçu seria pequeno grande.
Ipanema vem de y panema, água ruim, pois é local sem peixe. Na Amazônia, quando alguém fica azarado demais, tudo lhe sai errado, se diz que ficou panema.
Esse som gutural do i, grafado y, não existe em português, de modo que ora é aportuguesado a i ora a u (transliteração y →i,u). É aí que mora a confusão. Como a palavra francesa buffet, aportuguesada como bufê, bifê ou bufete. Maquillage, que virou maquilagem e depois maquiagem. O inglês backup, que virou becape.
Consultando topônimos na internete não é raro achar significado suposto, dúbio, desconhecido ou errado. É comum uma fonte dizer algo e outra afirmar outra. Mas isso acontece no resto do mundo.
Itaú pode ser originariamente itaí (pedra pequena) ou itay (pedra na água). A transliteração y→u. É mais provável que seja pedra na água, porque se fosse itaí ficaria itaí mesmo.
Dos muitos topônimos duvidosos, enigmáticos ou controversos, itaú é um exemplo de equívoco após equívoco.
A origem do nome Itaú causa controvérsia, dúvida e incerteza. Pra melhor esclarecimento vejamos o que disseram o historiador Luís da Câmara Cascudo e o escritor maranhense Antônio Gonçalves Dias.
Em seu livro História do Rio Grande do Norte, capítulo 14, página 353, Luís da Câmara Cascudo disse que Itaú é uma palavra originada dum índio assim chamado, que era chefe de tribo Paiacu, [Vede abaixo a origem da Itagüi colombiana como dum suposto cacique chamado Bitagüi] no século 18, cuja aldeia, ficava na beira dum riacho denominado Gitirana, onde havia um poço sombreado por frondosos e altos angicos que ali abundavam, recanto convidativo pros indígenas descansarem. Sobre o nome itaú, Câmara Cascudo ainda disse que a tradução da palavra itaú, que é verbete tupi, significa pedra preta.
Já o maranhense Antônio Gonçalves Dias, em seu famoso Dicionário da língua tupi-guarani [Já se vê donde vem o erro. O certo seria Dicionário das línguas tupi e guarani], disse o seguinte: Itaú é uma palavra tupi-guarani, que significa: Ita = pedra e o u = currais: Currais de pedra.
[Mais confusão. Uns dizem que u é preto, e agora é currais]
Mas conforme depoimento dalguns idosos, antigos habitantes do lugar, existia na direção sul, a 1 km da fazenda Angicos, uma porção de pedras que formavam espécies de currais no formato da letra U alargada e de ferraduras abertas.
Comparando o ponto de vista dos antigos moradores do lugar com o dos autores citados, chegaremos à conclusão de que a tradução do notável maranhense é mais afirmativa. Assim, se nos fosse dado o direito de opinar, não hesitaríamos em optar: Itaú = Currais de pedra.
Em http://tupieguarani.blogspot.com.br/p/observacao-as-corruptelas-sao.html Camapuã significa seio redondo, bico-de-seio (teta). Itaiú, itaju, itaú, ita yú: Pedra amarela, ouro.
Em http://www.dicionariotupiguarani.com.br/dicionario/itapua/#comment-1755 donde deve ter saído a definição errada pra Itapuã. Uma barafunda infernal, confundindo pua, puã e puá, e mais um ronco extra:
Itapuã (em grafia arcaica itapoan) é uma palavra de origem tupi-guarani que designa um tipo de arpão curto, com ponta metálica (originalmente de pedra, ita, nessa língua), que era usado pra pescar tartaruga e peixe grande. A palavra significa pedra que ronca, do tupi-guarani (ita = pedra, puã = ronco). Nome duma praia em Salvador, Bahia. Na canção Tarde em Itapuã, parceria de Vinícius de Morais e Toquinho.
Fonte: Wikipedia
Outra confusão é puá (redondo) e puã (ereto). Então a abelha irapuá acabou virando irapuã…
Já dá pra ter idéia da confusão reinante. Mas tem mais.
Na tevê vi documentário onde alguém dizia que Iracema, uma espécie de pocahontas nacional, não é nome indígena, apenas anagrama da palavra América. Na internete achei um que disse que Iracema significa virgem dos lábios de mel! Aí já virou esculhambação. Outros dizem: (Eira, ira = mel + sema = sair): Donde sai mel.
Em Folklore del Paraguay, de Dionisio M Gonzalez Torres, capítulo 5, Formas literárias em prosa, página 70:
Yrasema (murmullo del agua), de voz melodiosa, que hechizaba y tocaba maravillosamente el mbaraká (el porongo con piedrecillas), es la diosa de la música y del canto. Murió joven y virgen, envenenada por su hermano Japeusá. Fue la primera muerte que presenció la tribu.
Irassema (murmúrio da água), de voz melodiosa, que enfeitiçava e tocava maracá maravilhosamente (a cabaça com pedrinhas), é a deusa da música e do canto. Morreu jovem e virgem, envenenada por seu irmão Japeussá. Foi a primeira morte que a tribo presenciou.
Na página 83, capítulo 5:
Porá es el alma en pena que vaga en la Tierra, en los lugares donde en vida habitara, que puede se materializar o manifestar de diversas maneras, como sombra, bulto, algo que se mueve, ruido, luces errantes, etc.
[…]
Del Porá se ocuparon Natalicio González, Fariña Núñez y Alfonso Demaría.
— En lugares donde en la guerra contra la triple alianza se desarrolló batalla, la gente oye o cree oír en las noches tormentosas ruidos de lucha, tronar de cañón, chocar de arma y hasta ayes y lamentos, y creen ver luces, sombras y bultos que se mueven.
Porá é a alma penada que vaga na Terra, nos lugares onde habitara em vida, que pode se materializar ou manifestar de diversas maneiras, como sombra, vulto, algo que se move, ruído, luzes errantes, etc.
[…]
Natalicio González, Fariña Núñez e Alfonso Demaría estudaram o porá.
— Nos campos-de-batalha na guerra contra a tríplice aliança o povo ouve ou crê ouvir nas noites tormentosas ruídos de luta, troar de canhão, chocar de arma e até lamentos e ais, e acreditam ver luzes, sombras e vultos que se movem.
Porá em guarani, pora em tupi, é a origem do Caapora (Caá, mato. Pora do mato), derivando a caipora e em seguida a caipira.
Na página 411, capítulo 25, Alimentação:
Pamoñá (pamonhá) – Massa de farinha de mandioca com queijo ou carne (conservada pra levar em viagem). Sugestiva semelhança com nossa pamonha.
Na página 414:
Arakajé – Uma fritada de poroto (feijão rústico) cozido e transformado em massa, com pimenta e outros condimentos, e frito em azeite.
Sugestiva semelhança com nosso acarajé. Quem influenciou quem?
Anhangüera não é diabo velho
Em dicionário e enciclopédia se encontra a explicação clássica sobre o vocábulo. Por exemplo: http://www.dicionarioinformal.com.br/:
Anhangüera foi o Apelido dado a Bartolomeu Bueno da Silva, um aventureiro português nascido na capitania de São Paulo. Quando desbrava o interior brasileiro se deparou com alguns índios e os obrigou a mostrar onde encontrar ouro. Como negaram informar incendiou uma botija com aguardente ameaçando incendiar da mesma forma os rios e lagos se não mostrassem o ouro. Os índios, com muito medo, levaram imediatamente ao local onde existia ouro em abundância. Doravante Bartolomeu Bueno ficou conhecido pelos índios como Anhangüera, cuja tradução grosseira e sumária é diabo velho.
Anhangá é uma assombração, saci, espírito maligno. Na verdade o sufixo tupi güé e o guarani qüé significam ex, o que foi, o que era. Anhangüé significa ex-diabo, o que era um gênio, o que foi uma assombração mas agora está personificado como homem. Se confunde o sufixo guarani qüé com qüera. Qüera significa os seus, sua turma, correspondente ao tupi güé. Portanto Anhangüera significa o da turma do Diabo, o que tem parte com assombração, o que tem aliança cum espírito maligno. Não diabo velho. Há uma música paraguaia, Che novia cué mi (minha ex-namorada). Quando alguém diz, em guarani (na verdade se fala jupará, onde o castelhano supre lacunas vocabulares), Juan cuêra significa a turma de João, João e seus companheiros. Portanto Anhangüera significa O que tem parte com o Diabo, O da turma do Diabo, O diabólico ou Um diabo.
Mesmo porque velho, em guarani, é tudjá. Caraí tudjá, homem velho, senhor velho, velho.
No vocabulário gaúcho tem o vocábulo cuera:
1. Cuera
Significado de Cuera Por LC Vicente (PR) em 11-08-2010
Pessoa experimentada, que sabe bem seu ofício
Indivíduo apresenta destemor, valentia, corajoso
Que foi e já não existe (Cuéra) [confundindo com qüê]
origem tupi (qüera)
No dicionário mais uma vez a confusão cué com cuera. Lamentável. Seria como confundir porá com porã (bonito). Nada a ver.
Outra definição:
Cuera
sf Brasil. Rio Grande do Sul. Lesão, ferimento e ou cicatriz situados na região lombar de certos animais (cavalgadura), decorrente do uso incorreto de lombilho. Unheira.
sm Brasil. Pessoa valente. Indivíduo destemido e corajoso.
adj Que contém valentia, destemor.
(Etmologia de origem questionável)
Outro significado de cuera, agora vocábulo castelhano. Mas nesta vez a palavra derivou de couro. Portanto não tem a mesma raiz (Seria como em português chamar coura uma jaqueta de couro):
Antigamente se chamava cuera uma espécie de jaqueta que se colocava sobre o gibão.
A acepção de cuera como valente é uma deformação vocabular através do tempo, provavelmente se transformando o da turma, o do bando a bandoleiro e enfim a valente.
O anhangá tupi ou anhá guarani está em muitos topônimos além de Anhangüera, que é universidade, rodovia e lenda nacional. Em Campo Grande tem o bairro Itanhangá (pedra do Diabo). Em São Paulo tem o bairro Anhangabaú, anhangá ba y, água de malefício do Diabo, bebedouro dos demônios, enfim, água venenosa. Mas um exemplo da transliteração y→ú.
Vejamos o verbete Caruara, caroara em Dicionário do folclore brasileiro, de Câmara Cascudo:
Caruara, caroara - Duende invisível, bicho fantástico amazônico. Um bicho que inspira muito medo, é o que descrevem, à semelhança do bicho-de-pau que aparece nos quintais e capoeiras. Chamam de caroara. Como os outros, também tem mãe. É extremamente perigoso pràs mulheres menstruadas, que nessa condição evitam andar no quintal ou atravessar as trilhas que chegam às roças ou nos caminhos pra recolher água. O cheiro da mulher nesse estado, se afirma, atrai a caroara ou a mãe da caroara, que flecha a vítima. Os efeitos dessas flechadas são semelhantes aos do reumatismo. Aparece dor, inchação dos membros e dificuldade articular. Em Itá existem muitas mulheres com esses sintomas, cuja doença é atribuída a flechada de caroara. Parece que esses bichos não fazem mal aos homens. (Eduardo Galvão, Santos e visagens. Um estudo sobre a vida religiosa de Itá, Amazonas, 106-107, São Paulo, 1955). Reumatismo.
Teodoro Sampaio, O tupi na geografia nacional, 184, Bahia, 1928, registrou: Caruara sc carú-uara, o que come ou corrói. A comichão, o prurido, a sarna, a bouba. No norte do Brasil é uma moléstia que ataca o gado, causando inchação e paralisia nas pernas e corrimento. Com o mesmo nome se conhece uma espécie de formiga que dá nas árvores, cuja picadura coça como sarna, e também uma qualidade de abelha, cujo mel é nocivo. A cidade de Caruaru, em Pernambuco, significa caruar-ú [Notar bem a causa de confusão, a transliteração y→ú], aguada das caruaras, água que adoecia o gado.
Em abril de 1996 uma tragédia foi amplamente coberta pela imprensa. Num hospital particular (que foi fechado) de Caruaru, Pernambuco, morreram misteriosamente 50 pacientes submetidos a hemodiálise. Se constatou hepatite tóxica causada por água contaminada.
O uso de significados supostos e forçados pra não deixar em branco uma definição só leva a mais confusão. É como deduzir que Cheiquespir era árabe, pois o nome vem de xeque ou xeique Spir, ou que Colombo era negro, pois vem de Cristóvão Quilombo.
Quando estive em Medelim, em 2014, visitando a família de Carlos Molina, no caminho falamos sobre os topônimos tupis. Logo vimos um ônibus ostentando o letreiro Itagüí, uma cidade próxima. Eu disse:
— Mas esse nome é nitidamente tupi!
Itagüi é topônimo tupi
Muitos nomes resultaram de suposição:
Bororo (idioma orari) Pátio. Nos estados brasileiros de Goiás e Mato Grosso vivia grande população aborígine, os boe ou orari, mais conhecidos como bororo, que não é o nome verdadeiro dessas tribos. É um apelido dado erroneamente, talvez pelos primeiros brancos que contataram esses selvagens. Bororo significa praça, pátio, largo de aldeia e, segundo o testemunho de velhos silvícolas, os primeiros civilizados que chegaram ao aldeamento dos orari tentaram penetrar nas malocas. Pra os impedir os índios se postaram à porta e, indicando o terreiro, gritaram Ka ba boe ba? Bororo! Bororo!: O que desejai? Ao pátio! Ao pátio! Devido à repetição da palavra bororo os brancos acharam ser esse o nome da tribo.
Canguru – Quando os ingleses avistaram em primeira vez, na Austrália, os cangurus, perguntaram aos nativos o nome do animal. A resposta foi: Can guru (Não entendemos). Os ingleses interpretaram isso como resposta.
Esquimó Comedor de carne crua. Se autodenominam inuíte, humanos.
Lhama – Quando os espanhóis avistaram em primeira vez, na região andina, as lhamas, perguntaram aos nativos: Como se llama? Os nativos, obviamente, nada entenderam e ficaram repetindo: Lhama? Os espanhóis interpretaram isso como resposta.
Semelhanças tupi, guarani, grego, etc.
Kilãino - Kelainos
Ceuci - Circe
Panamá - Zeus Panamaros
Pitiapo - Priapo
Solimões - Salomão. A mítica Ofir, donde Salomão trazia outro, seria o alto Amazonas.
Tupa (Tupã?), do panteão polinésio (Francis Mazière, Fantástica ilha de Páscoa, página 107)


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