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sábado, 15 de outubro de 2016

 

Crônica buenairense-montevideana, 2016
Capítulo 3
Nariz empinado, corpo empertigado e síndrome de estados-unidos Glamurosa cidade com bancas miseráveis Buenos Aires es leyenda Boa comida em pequenos lugares Esplêndida pitsa A feira central de Campo Grande foi assassinada A suíça americana e as siberianas O oceano de livro e a livraria mais bela Vocabulário argentínico Uma pitada de geopolítica
O caso é que não encontrei o argentino empertigado, de nariz empinado, da visão do livreiro de Bogotá, estereótipo que causa antipatia, além do policial do guichê do aeroporto na chegada.
— Quantos dias ficarás? Qual hotel?…
Então se descuidar os brasileiros viram imigrantes ilegais e ficam morando lá de vez? O inverso ainda vá, mas… então ainda pensam que são a suíça americana? Não é só no Chile que aparece autoridade com síndrome de estados-unidos.
As autoridades é que estragam a imagem dum país, que o povo custou tanto erigir.
Assim como quem estraga um idioma são os gramáticos e os jornalistas.
O que vi foi gente de todo tipo, como aqui e noutros lugares, nada a ver com a imagem estereotipada dos locutores de jogo e futebol na televisão. Cada um muito ocupado em ganhar a vida, sem espaço pra pensar em rivalidades artificiais.
Sorte ter levado uma jaqueta impermeável. Ali, sim, seria a terra da garoa. Finíssima. Parecia espalhada por esprei ou aerossol. Assim fui bater perna, abrigado pelas marquises, andando bem rente, em direção à avenida Rivadavia, onde tem uma praça com banca de livro.
Mas antes achei outra no caminho, quase chegando. Das várias algumas abertas. São daquelas bancas (em castelhano quiosco ou kiosco) antigas, um cubículo de área de cerca de 2×1m2, tão pequena que o banquista não entra, veste. Ali um simpático e atencioso senhor de fisionomia indígena atendeu, puxando cada caixote empilhado separado por gênero, pra eu ver tudo. O pessoal usa criatividade com falta de espaço. Com tanto espaço na praça, as bancas minúsculas, cubículos, praticamente caçambas.
Esporadicamente ventava forte, só um sopro. Então sentia um pouco de frio. Felizmente o sopro era esporádico e assim ficou. Dava dó ver os livros naquele ambiente inóspito, mas milagrosamente os livreiros conseguiam defender suas peças.
No fim fui atrás dum banco pra sacar com cartão. Entrei a uma verduraria pra perguntar. O pessoal ouvia um cliente cantar, certamente um bolero.
Na última encontrei o volume 1 de Buenos Aires es leyenda - Mitos urbanos de una ciudad misteriosa, de Guillermo Barrantes & Víctor Coviello, editorial Planeta. Nos dias seguintes achei os outros três volumes.
Umas quadras a diante cheguei à tal praça da Rivadavia, também com umas e outras bancas abertas. O engraçado é que edições argentinas, como Leoplán, não se acha tão fácil. Narraciones terroríficas, de editorial Molino, que achei em Santiago, Lima e Bogotá, ali não. Billiken na feira de Montevidéu.
É um labirinto de bancas, essas um pouco maior, em condição muito precária. Uma, dum senhor bem velhinho, onde tinha um exemplar de Leoplán, era uma montanha de livros e revistas, dificultando muito garimpar. Tudo rente à garoa. A todo momento despencava um, quase caindo na cabeça. Os livreiros se viravam como podiam, cobrindo com plástico ante a possibilidade de chuva ou garoa com vento. Noutra banca, no oco da lombada dum livro fez morada uma linda aranha branca.
Eu não tinha onde pôr minha pequena sacola de viagem, pois o chão estava molhado em toda parte, tendo de pedir ao banquista a deixar dentro.
A prefeitura deveria melhorar aquela condição precária. Fornecer bancas maiores, fazer um teto geral, nem que fosse de lona. Poderia colocar teto de alumínio, como tem nos estacionamentos de atacadão aqui e nos eventos musicais ao ar-livre. Tal indigência num ponto cultural de referência não deixa de ser vergonhosa.
Campo Grande, num lado, resolveu o problema dos camelôs ambulantes, coisa que São Paulo não conseguiu, os instalando numa área toda coberta, cobertura metálica quente pra danar, mas toda coberta e fechada. O outro lado da moeda é que uma política fiscal truculenta e excessivamente regulamentar tolhe a criatividade e a cidade perde o charme dos ambulantes, como tem em Bogotá, Santiago e Curitiba, por exemplo.
Já o caso da feirona, caso que tanto se gaba, de que foi transferida à antiga estação ferroviária, é mentira! É uma farsa!
Quem conheceu a feirona não se deixa engambelar por essa tapeação.
A feirona foi extinta, extirpada, desmanchada. Foi uma imensa perda cultural da cidade, abafada pela ignorância e alienação dos habitantes e maquiavelismo dos governantes.
É preciso muita imaginação e doses de cachaça pra se convencer de que aquilo é a feira central, e que só mudou de lugar.
O que tem lá na ferroviária são restaurantes padronizados, tudo igual do começo ao fim, um pequeno camelódromo. Verdura e fruta quase nada. Tudo ao gosto da máfia dos supermercados, pra acabar com as feiras.
Um colega de trabalho cuja família é feirante contou que os feirantes são muito ignorantes e desunidos. Não se unem pra defender seu interesse. Assim a máfia supermercadista que nos envenena lentamente deita-e-rola.
Almocei no Mística, Rivadavia 5499, pequeno restaurante-café, onde uma linda e simpática garçonete serviu filé de merluza. Como antepasto sempre uma sopinha, o que caiu muito bem naquele meio frio, e pãozinho com patê. Mas um pãozinho com massa bem rústica. Pra beber tinha pomelo, a laranjona que tenho no quintal. Mas era um refrigerante, certamente artificial. Então a opção teve de ser cerveja. Tinha Quilmes, mas essa, além de ser muito industrial foi comprada pela Brahma. Se continuar abrasileirando eles… Ai, ai!, parodiando a famosa canção, Lloraré por tí, Argentina…
Dali voltei ao hotel em táxi, cerca de 16h. Como o tempo foi se fechando mais decidi dormir pra recuperar as muitas horas de vigília. Sábia decisão, pois doravante fez tempo aberto, sol e temperatura agradável.
Os táxis são muito baratos lá. Só teve um que não sabia ir ao hotel, tão no centro, e me transferiu a um colega que estacionou ao lado num sinaleiro. Por isso é bom levar no bolso as coordenadas GPS do hotel. Sempre que chego de viagem peço um cartão do hotel pra ter sempre no bolso. Assim o taxista já lê nome e endereço rapidinho e não corro o risco de me perder ao esquecer nome e endereço do hotel.
O taxista que falava sobre Brasil e Argentina disse que no Brasil dão valor ao real e não dão bola ao dólar. Que o povo argentino é muito besta, que despreza a própria moeda. Até põe casa a venda em dólar. Um absurdo!
Outro, com fotos de duas lindas indiazinhas de cabelo corrido no porta-luva, suas filhas, disse que tem saudade do tereré, que conheceu com amigos paraguaios. Disse que já entende bem português porque tem muito passageiro brasileiro. Disse que pensou que eu morava ali porque falo fluente. Que se nota sotaque que seria doutra região mas que seria um hispânico.
Os taxista em geral simpáticos, dando dica. Um explicou minuciosamente onde é a grande feira de livro dos domingos e como chegar até lá.
No dia seguinte, um passeio complementar na praça na Rivadavia, pra em seguida correr a outro endereço selecionado. Aquela história de otimizar o processo, tentando um arranjo de maior proveito e economia.
Pra almoçar, como em Lima, se anda muito até achar um restaurante. Quando entrei achei a decoração muito parecida à do Mística. Olhando bem a decoração vi que só podia ser ele. Sem dúvida, quando apareceu a garçonete do dia anterior. Nesse dia tinha fruto-do-mar com arroz, com a sopinha e o pãozinho com patê como antepasto. Uma deliciosa moqueca fumegante numa tigela de barro.
Um desses restaurantes-lanchonete com algo diferente, é o Puerto Rico, Junín 378. Não confundir com o tradicional café La Puerto Rico. À entrada um grande balcão de vidro com grande variedade de omelete, filés à milanesa, tortilhas, coxinhas, todos enormes. Pedi uma tortilha, uma omelete e uma coxinha (coxona) recheada de queijo derretido. Quem viu deve ter pensado que sou um grande comilão, mas já combinara com o garção, comer um pouco e levar o resto.
O Puerto Rico fica quase na Correntes, na altura da 9 de Julho, onde tem muitos sebos. Quer dizer, mais-ou-menos sebos, que infelizmente vão se descaracterizando, uns só com alguma prateleira de usados, outros assumidamente de novos.
Decidi ir a uma pitsaria recomendada na internete, a Güerrín, Corrientes 1368. No balcão da frente estava lotado na tarde mas no fundo tinha bastante mesa vaga. Tem pouca opção se pedir fatia. Mas quê fatia! A massa é mais fina. Tão delicada que nem se nota muito. O queijo estica tanto que se chupa como macarrão quatro vezes antes de quebrar. Nada mau acompanhada de chope numa espessa caneca de vidro.
Nada a ver com as fajutas de Campo Grande, onde fazem um creme na base dalguma gordura vegetal hidrogenada e chamam de 4 queijos, 5 queijos…, que deve entupir coração…
Um conhecido aqui disse que só compra queijo quando vai a Aquidauana, porque os queijos de Campo Grande, ou melhor, Buracópolis, é tudo com amido, maisena, pra dar consistência.
É por isso que se faz dieta, não dá certo, e não se sabe por quê…
O povo sempre tem na cabeça a idéia, espécie de arquétipo, de que é em Bons Ares onde tem mais livro. Nada a ver. A quantidade de livro é comparável a Rio de Janeiro e São Paulo. Nem de longe se compara ao oceano livresco que são Lima e Bogotá.
Pode ser que sejam mais leitores. Na capital são muito educados como pedestres. Mas, como disse Ramão, os argentinos nos hotéis brasileiros são muito mal-educados na refeição.
No livro Historias de Montevideo mágico, o autor disse:
[…] O velho ditado de que somos a suíça americana, onde campeia a razão e a modernidade globalizada do século 21 não impediu nossa gente conservar seus relatos mágicos, ao mesmo tempo reais, e que estaria muito mais perto dos conjuros populares que da fria lógica mercantil e utilitária.
Será que os dois hermanos do cone sul pensam que isso ainda está vigente? É coisa lá do comecinho do século 20. Dizque as duas suíças americanas não tiveram sustentação porque era dinheiro nazista. Dizque… Sei-lá. Não estou suficientemente experto no assunto pra filosofar encima.
É como aquela de que a mulher brasileira é a mais bonita, que usa biquíni minúsculo enquanto as outras são cheias de pano. Esqueças. Já-era. É dos anos 1980. A brasileira, pra-lá de convencida, ficou a trás, comendo poeira.
Me lembro, cerca de 2008, quando passou uma reportagem sobre a Sibéria. Eu disse:
— Rapaz! Cê viu as siberianas? Fiuuuuuu!
— Pois é. Não acredito que a brasileira seja a mais bonita.
A livraria El ateneo grand splendid foi eleita pelo jornal britânico The guardian a segunda livraria mais linda do mundo. A primeira é a livraria a Selexyz dominicanen boekhandel, na cidade holandesa de Mastriste. Um antigo teatro. No fundo, atrás das cortinas abertas, a cafeteria. Quatro andares de sacadas, donde certamente se via a peça com binóculo-de-teatro. http://www.buenosairesturismo.com.br/passeios/livraria-ateneo.php
Diz que o lugar existe por causa duma lei quanto ao patrimônio histórico. Que se não fosse a tal lei o lugar há muito estaria demolido pra dar lugar a algum prédio prafrentex.
Assim como no linguajar gaúcho tem muito hispanismo, na Argentina tem muito lusitanismo. Lá bondi é ônibus, garrafa é garrafa, garrafão, bomboneira, botija, botijão de gás. Às vezes aparecem palavras que não tem no dicionário RAE, real academia espanhola. Tem vez que a custo se acha o significado, pesquisando na internete, como espaguetizar. Num artigo apareceu o termo sobre a matéria espaguetizada num buraco-negro. Significando desmaterializar, moer, decompor, esmagar, com analogia à massa que é amassada, saindo como fios de macarrão.
Mas noutro artigo a manchete Eran feitas niñas, ahora son bellas mujeres (Eram [*?] meninas, agora são belas mulheres). Em castelhano hecho é feito, hacer é fazer. Em nenhuma pesquisa apareceu feita, feitas, feito ou feitos em castelhano.
Se procuras uma loja que vende sacola de viagem ou penduricalho pra pôr nome e endereço na mala, procures uma marroquinería, que originalmente é loja que vende artigo de couro.
Mais um artigo sobre os paraguaios fundando Buenos Aires:
Anos atrás um brasileiro postou um vídeo iutúbico defendendo a tese de que o Brasil nada tem a ver com e não deveria apoiar a reivindicação argentina de posse às ilhas Malvinas. É óbvio que o sujeito nada entende de geopolítica. Uma base da Otã no arquipélago barraria o acesso brasileiro à Antártica.
Espero que Putin não acabe só com o dólar. Também com o inglês como língua-geral.
Um governo mundial é algo muito interessante. O problema é sob quem.


 Coleção de cartão-postal de Joanco
 


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