Restaurei
a capa que escaneei duma tirada da internete. Aumentando a 270%, colando encima,
e uns retoques, restaurei o lado esquerdo lascado. Dá pra melhorar, mas deixo
pra quem é do ramo.
Duns exemplares
encadernados, depois arrancados da encadernação. Eta povo indeciso! Este exemplar
cum furo-de-traça bem no meio.
Não me
considero desenhista. Me espantei o quão bem restauro só usando os recursos do paint.
Trabalho amador, é claro.
Eis dois
exemplos mais trabalhosos. Em ambos o recurso do paint, inverter
verticalmente ou horizontalmente fizeram milagre com o braço de guarda Belo e
da madame ricaça.
No computador devia ter um lugar pro usuário desenhar os
próprios símbolos, criar seus tipos (não sei por quê, diabos!, chamam fonte)
e emotícones.
Aqui no uorde tem uma seção de caracteres especiais, inserir
símbolo, cujo ícone é uma ferradura. Tem símbolo esdrúxulo de todo tipo, pra
letras doutros idiomas e outros alfabetos, símbolos pra moeda e tudo o mais que
se pensar, mas não segue uma linha lógica nem dá espaço pra se criar quando não
se encontra.
Por exemplo: Tem o símbolo mais-ou-menos, da matemática, mas
não tem o menos-ou-mais. Alguém com raciocínio simplista, ou melhor, simplório,
deduziu que é redundância. Afinal, se x = ±1, se o menos estiver encima do
mais, dá no mesmo.
Mas o menos-ou-mais é necessário. Por isso tive de criar
como duas figuras, pra, por exemplo, expressar a seguinte fórmula pra tangente:
Eis os dois símbolos, como figura. Colando no texto do uorde,
letra tamanho 12, tamanho das figuras a 30%
Parece mas não é
Na madrugada ouvi um bicho terrível arranhar a porta. Queria
entrar de qualquer maneira. Um lobisomem? E agora?! Me levantei, abri a porta, e a criatura
entrou. Esses meus gatos são mais folgados que colarinho de palhaço.
●
Apavorante encontro com a dama-de-branco
O velho terminou o medonho relato dizendo que ninguém no
mundo passou tão formidável ameaça mortífera. Discordei.
Pois saibas que há fados muito piores que a morte. Meu
relato deixará teu lobisomem no chinelo, e te sentirás afortunado teres
enfrentado um simples lobisomem. Medonho foi quando vi uma dama-de-branco!
Absorto, divagando, com mil pensamentos dispersos, eu admirava
a estatueta dum anjo pendurada na linda catedral, os vitrais e as pinturas
laterais retratando cenas bíblicas. De repente, no fundo do corredor, quase na
porta-de-entrada, diáfana visão. Vinha uma dama-de-branco. Lentamente, meio
vaporosa e algo transparente, avançando firme.
Não sei por quê não corri. Acho que não é pecado sair
correndo duma catedral. Fiquei olhando hipnotizado o que parecia uma sereia
cantando.
O olhar brilhava, um sorriso de malícia e crueldade femininas,
o andar cadenciado e lento. Comecei a suar frio. Era tarde pra correr. Á! Se eu
tivesse uma reza-brava pra fazer a surpreendente aparição se dissolver no ar!
Mas por sorte constava que aquela não seria das mais malvadas. Ao menos eu cria
assim.
Por quê não corri? Ora! Não sou maricas! Toda a vila riria
de mim durante anos!
Eu fechava os olhos, torcendo pra, ao abrir, criatura já não
estar. Mas não! Continuava avançando!
Tive a esperança de ser apenas imagem, me atravessar, qual
fantasma, e continuar a marcha implacável. Eu desmaiaria, seria acudido por
alguém e despertaria num leito aconchegante. Mas não adiantaria. Já estava
marcado. Maktub! Estava escrito! A
aparição me perseguiria aonde eu fosse. Eu nunca teria sossego.
Vislumbrei tudo o que me aconteceria, a perda de
tranqüilidade, o sono interrompido toda noite, os berros na madrugada…
A dama-de-branco chegou. Como não me mexi, pegou minha mão.
Pois é, meu amigo. A morte e o casamento são as duas coisas
que, quando nos lembramos de que um dia chegará nossa vez, dão um arrepio!
●
Carmen correctum
(Cancioneiro corrigido)
Muitas vezes vemos um conto, filme, idéia, canção… com algo que fica a pulga-atrás-da-orelha,
coçando pra dar um retoquinho. Eu
faria assim, a
gente pensa. Vejamos algumas canções que eu retocaria. Mas encaremos mais como brincadeira.
https://www.youtube.com/watch?v=h6WLgyW3EoY
Marchinha de Sujismundo
Em vez de
É
um lixo
é
um lixo
esse
tal de Sujismundo
vai
É
imundo
é
imundo
esse
tal de Sujismundo
Porque dá mais
harmonia, melhora a rima
https://www.youtube.com/watch?v=ksIDn2_GuSo
Mangueira,
1987 – No reino das palavras, Carlos Drummond de Andrade
0:34
Itabira,
que em seus versos ele tanto exaltou
Aqui temos confusão
pronominal. Está citando Carlos Drummond de Andrade. Até ali Carlos é a
terceira pessoa (A primeira é quem canta, a segunda quem ouve). Então neste
verso seus versos está correto. Mas o ele se refere à quarta
pessoa, inexistente no caso. Teria de ser si em vez de ele, pra
estar coerente. Mas se omitir o ele fica consertado o verso.
Itabira,
que em seus versos tanto exaltou
https://www.youtube.com/watch?v=q4IPpk8ioAM
União da Ilha do Governador, 1994 - O despertar dos
magos,1:04
Mágico
mundo
Mágico mundo
que
vai girando sem parar
Eu poria
Mágico
mundo
Trágico mundo
que
vai girando sem parar
https://www.youtube.com/watch?v=9YSNscPYVTg
Canto da terra, Rio Paraguai
0:28
Vai, lá no rio, a chalana subindo o
remanso do rio Paraguai
Eu tiraria a
redundância (em negrito)
Vai a chalana subindo o remanso do rio
Paraguai
1:13
Fascínio
e beleza
que
a gente não sabe onde está
Se
no Paraíso há muito perdido voltou a encontrar
Aqui um erro crasso,
creio que do cantor, pois é óbvio que o certo é
Se
o Paraíso há muito perdido voltou a encontrar
Pois está dizendo
que reencontrou o Paraíso (No plural porque se refere ao local mitológico), que
a paisagem é tão bela, que faz analogia com o Paraíso
https://www.youtube.com/watch?v=_598KdVd990
Tony Medeiros –
Iamã, 1:12
Ruge
feroz
Como
um tigre a uivar
Nesta belíssima letra
um erro crasso que enfeia a canção
Tigre uivando? Tudo bem,
licença poética, mas não exageremos
Com boa-vontade dá
pra remendar:
Ruge feroz
Como
um tigre a caçar
https://www.youtube.com/watch?v=ZJBuY2bjpx4
Boi-bumbá Caprichoso - Vento
norte
1:05
Vento
que vem
Balançar
canarana no rio
Vento
de traz
A
saudade de quem já partiu
Se puser faz
em vez de vem, harmoniza mais com traz, montando verso do tipo
ABAB, pois antes estava CBAB, só cum par de rima em vez de dois.
Vento
que faz
Balançar
canarana no rio
Vento
de traz
A
saudade de quem já partiu
https://www.youtube.com/watch?v=hu_XSw4e9GU
Raul Seixas - Tentes outra
vez
0:15
Não
digas que a canção está perdida
Tenhas
fé em Deus
Tenhas
fé na vida
Eu colocaria assim:
Não
digas que a questão está perdida
Tenhas
fé em ti
Tenhas
fé na vida
Noutra canção
Eu nasci há 10
mil anos atrás
E
nada tem neste mundo que eu não saiba demais
O eu é
supérfluo, redundância, mas se nota que ao cantar, pra harmonizar melhor, pois
sem o eu parece mui curto, faltando algo, perdendo ritmo, é melhor
manter
10 mil anos só pode
ser atrás, na frente não dá, absurdo. A redundância é melhor eliminar em prosa,
mas aqui atrás rima com demais.
Eu
nasci há 10 mil anos atrás
E
nada tem neste mundo que eu não saiba demais
https://www.youtube.com/watch?v=icpHgGAZJ8Q
https://www.youtube.com/watch?v=5tWhQJ8UMOQ
Portela 1986 - Morfeu
no carnaval
Tem patrão que é
vacilão, mas logo o sujeito da canção está desempregado. Está desempregado ou
tem patrão vacilão? Se é samba-enredo, o enredo é confuso.
https://www.youtube.com/watch?v=i9-WscD3Xxw
Nara Leão - A banda
0:15
Eu
estava a-toa na vida
meu
amor me chamou
pra
ver a banda passar
cantando
coisas de amor
Eu colocaria assim:
Eu
estava a-toa na vida
meu
amor me chamou
pra
ver a banda passar
cantando temas
de amor
1:22
A
moça feia se debruçou na janela
pensando
que a banda tocava pra ela
Se fosse prosa seria
o mesmo caso da canção a Carlos Drummond acima, mas como quem compôs era ruim
de gramática, foi sorte assim, pois no correto não rima
A
moça feia se debruçou na janela
pensando
que a banda tocava pra si
A menos que se
remendasse, mas também não seria lá grande coisa:
A
moça feia se debruçou na janela, e ali
pensou
que a banda tocava pra si
https://www.youtube.com/watch?v=780-_d1OZL8
https://www.youtube.com/watch?v=780-_d1OZL8
Originais do samba – Do lado
direito da rua Direita
Aqui um festival de
erro. A começar pelo título, pois se trata dum lugar, não a partir dum lugar: No
lado direito da rua Direita.
Do lado direito
da rua Direita
Olhando
as vitrines coloridas eu a vi
Mas
quando quis me aproximar de ti não tive tempo
No
movimento imenso da rua eu lhe perdi
E cada menina que passava
Para seu rosto eu
olhava
E
me enganava pensando que fosse você
E
na rua Direita eu voltarei pra lhe ver
Eu
a vi. O eu, como no caso
da canção de Raul Seixas, preenche espaço, de modo que a redundância está bem. A vi se refere à terceira pessoa. Se fosse à
segunda tem de ser te vi.
Mas no verso
seguinte me
aproximar de ti, ti se
refere à segunda pessoa. Então confusão pronominal, confusão referencial. Está falando
com a própria ou cuma terceira pessoa? É evidente que à terceira pessoa, pois
no final disse pensando
que fosse você.
No verso seguinte lhe perdi. O lhe se refere à terceira pessoa. Mas
teria de ser a perdi, como no primeiro, a vi, porque lhe
se usa em caso de exercer ação, movimento. Lhe perdi não faz sentido.
Para seu rosto eu
olhava. Aqui o famigerado
português-de-jornalista. Para denota intenção, finalidade. É vício-de-linguagem
usar para em vez de a. Mas não é só vício. É erro porque significa outra coisa.
Mas estar olhando algo já é estar olhando em direção a algo. Seu rosto eu
olhava
No lugar de quis
eu poria tentei. No lugar de imenso eu poria intenso.
E
cada menina que passava. Menina,
propriamente, é criança. Embora no português popular menina, garota,
se refere a moça. Não é bom essa confusão.
Na primeira estrofe
de 4 versos a rima meio capenga, do tipo ABCB. No segundo, do tipo AABb. A última
rima ver com você (~vê com você), olhava
harmonizando com enganava.
No terceiro verso, de
ti é supérfluo. O eliminando a confusão referencial.
No último, à rua Direita
voltarei, não na rua Direita
voltarei
Eu comporia assim:
No
lado direito da rua Direita
Olhando
as vitrines coloridas eu te vi
Mas
quando tentei me aproximar não tive tempo
No
movimento intenso da rua te perdi
E cada moça que passava
seu
rosto eu olhava
E
me enganava pensando que fosse você
E
à rua Direita voltarei pra te ver
Coleção Adeene
neles!
Dom Pedro II - Jan Neruda
Katia Ebstein – Rita Lee
Coleção Cartão-postal de Joanco














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