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sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

Crônica cartageneira

Um quadro rente ao elevador, no 10º andar do Stil Cartagena
Turista, é assim que Cartagena te vê
Uma imagem vale por mil palavras
Crônica cartageneira
Os piratas continuam lá
De volta ao país do cata-vento O samba do crioulo doido, o mariache louco e a aeromáfia Uma aventura horripilante A aprazível Monteria Pavor a teco-teco Caribe esquisito A balconista com português macarrônico A terra do assédio comercial Isso é lá com a Quatro rodas! O pior almoço do mundo O almoço do recruta Zero e a turismáfia Cervejas assombradas Um restaurante sem cardápio Açúcar-mascavo não é açúcar? Implicância, complicância e replicância na reta final ou Aeronauta se não complica na entrada implica na saída Colômbia assombrada
Quando fui a Bogotá, Joanco perguntou sobre Cartagena das Índias, onde dona Sueli sonha conhecer. O de Joanco era o faroeste norte-americano, ver o cenário real dos cenários de Hopalong Cassidy e tantos outros ases do bangue-bangue, percorrendo a famosa rota leste-oeste. Então ficou pendente conhecer esses pontos mais exóticos, especialmente o caribe colombiano. Ficou pro final de 2017, ressabiado com dólar acaba-não-acaba e inseguranças mil quanto à situação mundial.
Pra final de novembro a cotação da passagem aérea direta a Cartagena já estava o olho-da-cara, e doravante só pioraria. Então pesquisei cidades próximas, pra dali fazer viagem aérea local rumo a Cartagena. A única que deu resultado econômico foi a obscura Monteria. Carlos Molina, de Medelim, perguntou o quê eu faria em Monteria. Passear ali um dia na ida e outro na volta.
Havia pouco a Colômbia passou a exigir certificado de vacinação contra a febre-amarela. Como tenho um comprovante de vacinação anti-febre-amarela de 1992, rapidinho a Anvisa do aeroporto fez uma carteirinha de validade perpétua, uma semana antes da viagem. Disse que é a única vacina exigida por algum país.
A saída foi enrolada, pois a tinta de minha carteira de identidade apodreceu e vazou, deixando a foto meio borrada. Sem tempo de fazer outra, tinha de ir assim mesmo, com a de motorista como auxiliar. Dava pra ver que era eu, mas os caras da Avionça consultaram aqui e ali até confirmar se daria pra ir. E cobraram uns 250 só porque as malas eram três objetos. Eu já estava na área de embarque e um funcionário foi me buscar, avisando que o valor estava errado, que não foi cobrado como vôo internacional. Tive de passar na turma do raio-x de novo. Na volta fiquei esperto e pus o máximo como bagagem-de-mão.
Por falar em carteira, há pouco fiz a biometria da carteira-de-eleitor. Não sei pra quê inventaram isso agora. Como se já não bastasse jogar ao lixo rios de dinheiro nessa farsa que é a democracia. Puseram soldados do exército pra atender. Como já está perto de sair a carteira-de-identidade com chipe, por quê não unificam tudo, identidade, cepeefe, eleitor, etc, numa carteira?
E como rouba descaradamente essa máfia do transporte aéreo! Está sempre inventando modo de cobrar mais, faz gato-e-sapato do viajante, pinta-e-borda no regulamento, as regras sobre bagagem e vistoria do raio-x mais parecem a casa da mãe Joana ao som do samba do crioulo doido e do mariache louco e na dança-de-são-vito, e a ninguém tem de prestar conta. Foi pra isso que sucatearam a ferrovia.
Como é ruim o sistema de som dos aeroportos. Tem vez que soa um aviso nas portas-de-embarque, mas como rádio mal sintonizado, que não dá pra entender. Se for aviso crucial, cruz-credo! Já-era! E depois ouvir as instruções de emergência, que ninguém liga nem se lembra. E reouvir tudo em inglês, warl werl wirl worl wurl! Ô língua irritante e feia. Só podia mesmo ser língua de pirata. E quanto tem vídeo na traseira da poltrona da frente, na opção mapa-de-vôo. Antes se seleciona o idioma. Mas os dados de vôo, velocidade, altura, tempo, hora… são apresentados alternados em castelhano, português e inglês. Então pra quê mandou escolher o idioma antes? Mais um programador que devia levar uns cascudos.
Toda vez ter de ver e ouvir todas aquelas tediosas instruções. Deveria ter uma forma de quem já viu, ser dispensado de ver. O que se deveria fazer é a cada vôo os aeronautas, e até os donos da empresa, ter de ver um vídeo completo sobre como não transgredir os direitos do consumidor, sobre como atender aos passageiros em caso de emergência como vôo cancelado ou atrasado, por exemplo.
Na chegada a Bogotá, pleno domingo, o cartão de débito internacional não funcionou. Não era esquecer a senha, como já aconteceu por causa de regime muito drástico pra viajar magro e leve.
O quê farias ao chegar ao estrangeiro e não conseguir sacar? Voltar imediatamente? Como? Se nem dá pra pegar táxi! Disseram que o real não é trocado lá, e que o dólar acabará a qualquer momento. Disseram que o dólar acabaria em 18.10 e acreditaste. E a bagagem foi direto, apesar do velho critério de que vôo no dia seguinte bagagem na esteira. Recorrendo ao balcão-de-informação, ver se havia outro caixa, mas a má-vontade é implacável. Também na loja da Avianca, perguntando se alguém informaria como sair da sinuca, nem pensar! Não era ali, e ponto-final. Cada um só quer cumprir sua função, e nada de pensar. Pensar é só pra intelectual.
Um pesadelo cafquiano num cenário dantesco resultando numa encrenca rabelaisiana, quase fortiana. Me sentia uma espécie de homem de Taurede. Um enredo de deixar Poe, Lovecraft e Hitchcock no chinelo. Tudo isso requereria uma cherloquiana solução. Nem dá pra vender a roupa da mala porque foi direto. Se ao menos eu fosse extrovertido (Dizem que o vocábulo correto é extravertido). Virar mendigo, lavar prato, virar artista-de-rua, quero dizer, -de-aeroporto, e arrecadar moeda, rodar bolsinha, ir a um posto policial pedir socorro à embaixada? E a paranóia de ser atendido com a indiferença absoluta do balcão informativo e da loja da Avionça, no estilo da fria indiferença psicopata dos plantões noturnos de pronto-socorro!
Terei coragem de visitar a China? Ai!…
Mas como as armas ocultas de 007 ou do agente 86, a bolsa de Esquálidus, o cinturão de Batman ou o manual dos escoteiros-mirins, em reviravolta espetacular, tirei uma carta da manga, ou melhor, um cartão do bolso. A salvação! Saquei o e com o cartão-de-crédito e corri ao hotel San Simon, só pra passar a noite. O certo é só pagar o taxista após entrar ao hotel e confirmar no balcão se a corrida cobrada é justa. Esse hotel recomendo muito. Quê sorte que é um hotel bom e com tripulação super atenciosa, pois com a internete do balconista imediatamente fiz o aviso de viagem no sítio Bradesco cartão, que esqueci de fazer antes de embarcar, senão ao constatar movimento no estrangeiro o cartão seria bloqueado. Por sorte o balconista teve boa-vontade em instalar o programinha de segurança requerido, e assim pude acessar.
Sem trocar de roupa mas sem o peso da bagagem, passei uma repousante noite. Lá o tempo parece passar mais lento. Pensando quase amanhecer, uma olhada no relógio, 1h da madrugada. No final da madrugada segui ao aeroporto, no táxi do hotel, a Monteria. Bom assim, o hotel com transporte próprio. Menos chance de taxista careiro.
A sala da esteira do pequeno aeroporto de Monteria tem um sofá no centro e táxi diante da porta.
Pensei que o nome se devia a morros, montes, mas a cidade é toda plana. Monteria, a pérola do [rio] Sinu, é a capital pecuária da Colômbia. Segundo a Uiquipédia, quanto à origem do nome da cidade existe documentação sobre um lugar denominado paragem das Monterias, que chamam de Boavista em memória ao primeiro povoado levantado no lugar das Monterias, chamado assim por ser o ponto de reunião dos monteiros que caçavam no arredor. A palavra é de origem espanhola, porque o vocábulo montería era usado genericamente pelos espanhóis pra apontar os pontos de caça.
Pacata e agradável cidade de calor abrasador. No pequeno hotel River city situado no centro, perto de tudo, parece se estar hospedado em casa de amigos. O desjejum a cozinheira prepara na hora com ovo mexido, pão-de-fôrma, uma fatia de banana-da-terra frita, outra de mandioca frita e outra de queijo-coalho, ao lado um potinho de coalhada, que não sei por quê chamam de suero, soro, e um copo de suco de tomate-arbóreo, que pensei que fosse de melão.
Uma quadra à direita uma praça com bancas de livro e artesanato. Na volta, um sábado, muitas bancas sendo montadas prum espetáculo noturno. Os vendedores ali são normais. Nada a ver com o espantoso assédio que é a marca-registrada de Cartagena. As ruas não são esburacadas e remendadas como nossa capital pecuária. Talvez algum dia encontre uma cidade com as ruas como as de Campo Grande. Nas bancas muito mosquito mas o pessoal parece que nem liga. Estranho, já que a Colômbia passou a exigir vacina anti-febre-amarela pra entrar no país. Casa de ferreiro, espeto de pau. Na praça vi várias iguanas em roda da comida que o pessoal jogou.
Ali terminava a viagem de ida na Avionça. No dia seguinte segui a Cartagena das Índias num vôo da Easyfly, que atrasou muito. Tive receio de viajar naquela avioneta, quase um teco-teco.
Me fez lembrar de meu primeiro cunhado, que era gerente regional da Cheque-cardápio, cuja sede regional é em Campo Grande e não em Brasília. Foi nos anos 1990. Preste a embarcar a Brasília cismou e disse:
— Eu é que não embarcarei nesse teco-teco. Esses trecos vivem caindo.
O colega que o acompanhava disse:
— Mas quê bobeira. Nada a ver. Então irei sozinho.
Mas pra não o desacompanhar, acabou não indo. No dia seguinte souberam que o teco-teco no qual quase embarcaram caiu e morreu todo mundo.
Na sala da esteira-de-bagagem do aeroporto de Cartagena uma prévia do assédio comercial típico da cultura local: Os carrinhos não ficam disponíveis pra pegar, como em geral, nem custam 2 dólares, como em Bogotá, mas tem um motorista de prontidão. Basta sacar a mala e o sujeito chega pra levar ao táxi. Então é só dar uma gorjeta.
Quando pesquisei na internete os comentários sobre os hotéis, tive de me contentar com o com queixas mais leves, em evitar os com queixa de vazamento que ninguém consertava, etc. Não tem hotel sem queixa. Mas o mais estranho é a precariedade de livraria, principalmente de sebo, em Cartagena, Barranquilha e Santa Marta. Barranquilha, que é a segunda maior cidade da Colômbia, praticamente só tem livrarias cristãs! O caribe colombiano é uma região muito esquisita, mesmo.
O taxista achou que eu deveria ficar em Bocagrande, que é a região chique, com praia, que os que conhecem Maiame dizem que é muito parecida. Maiame, Nova Iorque são nomes me repugnam em vez de atrair. Como vi depois, fiquei no melhor lugar.
A balconista do hotel Stil Cartagena (Mas o quê, diabos!, é stil? Decerto falam inglês macarrônico) falava um castelhano estranho. Imaginei que fosse jamaicana ou doutro país de língua inglesa, afinal ali é Caribe, quem ainda não falava castelhano direito. Mas no final, quando respondi, disse Pero hablas! Então entendi. Em sua imaginação falava português, mas um português macarrônico.
Deixei as malas no porque ainda não dava a hora do chequim, e com o mesmo taxista, que também é guia turístico, fui percorrer a cidade, um tur, como se diz. Fiquei meio ressabiado em passear assim de cara com o táxi de vinda do aeroporto, mas acertei na mosca. Enquanto os passeios do hotel é que são duvidosos, como veremos.
Sol abrasador, calor tropical, mormaço dos diabos, canícula infernal. Começando com visita a um forte na muralha. Na entrada os vendedores de chapéu e água assediando, que é preciso comprar água, que tem de comprar chapéu. Uma subida muito íngreme. Fiquei imaginando a dura vida dos soldados no forte. Subir aquilo já é um sufoco, imagines carregando peso! Não é de admirar que viviam pouco. Eu, hem!? Esse negócio de visitar Macho-Picho e outros passeios atléticos não é comigo, não! Dei uma olhada aqui e ali, na paisagem, e caí fora.
As vielas do centro histórico são mesmo estreitas. Só cabe um carro. Sorte que poucos passam. Na rua muitos carrinhos com fruta, o típico queijo coalho, salgadinho e água-de-coco, que lá é muito caro, 4000 pesos o coco, cerca de R$4. Mas é coco pequeno e maduro. Em Campo Grande o coco na rua está a R$5, no nordeste de R$0,5 a R$3, mas são cocos grandes e verdes, com muita água, a encher a barriga. A castanha é formada pela água, quando madura, por isso coco maduro tem menos água. O coco de lá, chupa um pouquinho, e já acabou. Caríssimo o coco lá. E não compres o que vendem num saquinho plástico, daqueles de fazer chupa-chupa. É um sufoco sugar aquilo, e no fim fica o gosto de plástico.
Um ponto turístico principal é visitar o convento da Popa. Do alto se vê toda a cidade. Mas não pegues o guia, porque fala sem parar, não te deixa nem dar uma olhada, ler os escritos nas fachadas e monumentos, te guia, patati-patatá, pumpumpum, blablablá, e pronto, já estás na saída.
Toda a área do centro histórico é apinhada de gente, um formigueiro. Mas é diferente. Em São Paulo, Buenos Aires, Bogotá, quando se anda no meio da multidão, parece gente, o pessoal interage, desvia, pára. Ali não. Parecem bicho. Andam como zumbis. Ninguém desvia nem sai da frente. E se parar pra alguém passar, parece que ficam estupefatos.
No final me levou ao restaurante Casa de socorro, que disse ser o melhor, e que um turista nos dias seguintes não queria mais comer noutro lugar. Esse restaurante é estupendo, comida deliciosa. Lagosta num pote de barro com molho espetacular. Depois entendi por quê o tal turista não quis mais comer noutro lugar. É que no geral a comida local é uma droga. Quase tudo sem sal nem outro tempero. A qualidade não é uma marca local. Num restaurante ao ar livre, na praça Santo Domingo, um sortido de fruto-do-mar que não diria ruim, mas quase insosso. Estava mais pra bucho sem tempero que pra fruto-do-mar. E os vendedores assediando o tempo todo, enfiando na cara chapéu, desenho, penduricalho e bijuteria, etc. Quem não suporta assédio de vendedor, não vá a Cartagena das Índias. Talvez haja mais restaurante bom, mas perdi a gana de experimentar. Eis uma tarefa pro pessoal da Quatro rodas!
No caixa duma papelaria um cartaz dizendo que o ambiente é monitorado com câmeras diretamente ligadas à polícia. Claro que o diretamente ligado à polícia é tão mentiroso quanto nosso famigerado estacionamento, pra cliente, sujeito a guincho. O que me fez lembrar de nossa cerca elétrica, que dispara alarme quando tocada. Uma vez um eletricista contou que esse tal alarme que aciona imediatamente a equipe de segurança da firma instaladora não é bem assim. Como esses vigilantes não podem usar arma, vão bem devagar, dando tempo pro ladrão fugir.
O assédio comercial é uma marca-registrada da cultura local no Caribe colombiano. Não é assim em Bogotá, Medelim nem Monteria. Coisa desagradável assim só conhecia dos meninos vendedores de pequenos objetos utilitários no lado paraguaio da fronteira, Pedro João, atravessando a rua de Ponta Porã, os vendedores de fruta do mercadão de São Paulo e os funcionários dos restaurantes de Maceió na crise de 1999. Só que muito pior. Somar tudo e elevar ao quadrado! O vendedor de chapéu se aproxima e soca um em tua cabeça! E insistem até a quem está de chapéu!
Dando a volta atrás do hotel tem uma praça em cuja lateral se enfileiram muitas bancas-de-livro. Não se consegue olhar com tranqüilidade. Só de passar na frente o vendedor já te aborda. Teve um que largou o almoço pra me assediar. Tento olhar em geral, e o vendedor fica mostrando um e outro em minha cara. Me põe pra olhar na lateral da banca, e logo me puxa à outra lateral. E dá-lhe sugerir livro sem parar. A coisa é compulsiva. E isso em todas as bancas! Até parece que tem escola pra isso lá. Aquilo me deu tanta ojeriza, que já não queria mais voltar àli.
Outra estranheza é que nenhuma banca tem gibi. Só numas bem minúsculas, mas só Condorito, que também encontrei no supermercado Éxito.
No cartão do taxista:
Yesid Montt Aguilar
Conductor profesional
Servicio de taxi turístico con aire condicionado
Viaje a cualquier lugar
Asociación de taxi aeropuerto
Cel.: 301 5808717
Cartagena de Indias, Colombia
Numa manhã fui a Bocagrande, a tal a maiame local. Não sei o quê tem de chique ali. Talvez só os hotéis. Só se for um chique de ouropel. A água já não é lá flor-que-se-cheire. Deve ser turismo pseudochique pra novorrico ignorante freqüentador de xópim e comedor de macdônal. Mas pra quê se hospedar na frente da praia? Se fôssemos imunes a insolação, tudo bem. Mal dá pra tomar dois banhos marinhos numa semana, ainda mais eu sendo mais branco que pão integral de supermercado. Mal comecei a passear na areia e já despontaram dois sujeitos se oferecendo pra guardar a sacola. Eu guardar minhas coisas com esses sujeitos!? Nem pensar! Consegui me desvencilhar dos tipos, e apareceu uma negra jovem oferecendo massagem. Foi forçando, forçando, pegou minha mão e passou um líquido dum tubo, e foi forçando a tal massagem, com clichês de que estou estressado, tenso, aquela conversa toda. A colega estendeu uma cadeira dobrável e queria me fazer sentar ali a todo custo. Não me sentei. Uma mulher passou dizendo que aquilo custa depois o olho-da-cara. Dei uma moedas, atravessei a rua e vi que só havia pequenos xópins. Olhei um, que era uma droga. Da rua via a torre do Relógio, o ponto de referência-mor da cidade. Me mantive naquele lado da rua, porque no outro não dava pra passear sem ser importunado. Andando voltei ao centro histórico.
Outro assédio foi quando parei pra ver uns livros expostos na calçada. Comprei um. Então entrou de raspão uma mulata nova, magra, de camiseta azul parecendo do instituto mirim, dizendo, festiva como se encontrando antigo conhecido. Arrepiei. Como teria alguém conhecido naquele fim-de-mundo? Caramba! A coisa ali é barra-pesada mesmo! A guria pegou o livro, disse que escrevia também. O vendedor foi buscar troco. Guardei o livro. Pediu de volta, pois não olhara tudo. Olhou mais. Perguntou se podíamos ir a um canto pra conversar. Pensei em dizer que estou num simpósio da polícia internacional, se não quer ir ver como é. Mas melhor não. Vai que, como aqui, onde os bandidos gostam de matar policial. Eu disse que tinha de ir, pois já estava atrasado. Fui.
O hotel tem dez andares. Freqüentemente um dos dois elevadores ficava abrindo e fechando a porta, como se recusando a se mover. Vai ver que não gosta de carregar pobre. Tem uma grande sala de desjejum, que não digo que seja má, mas que pra hotel daquele porte em local tão famoso, é sofrível. Só num dia teve fila, mas bem que poderiam pôr o talher de servir em ambos lados da mesa, em vez dum. Mamão, abacaxi e melancia em pedaço, pães e bolachas, queijo coalho, salame, um míni-embalado (aqueles de avião) de manteiga e outro de geléia, leite, cereal, dois tipos de lingüiça alternados nos dias, às vezes ovo cozido (com casca!). O que tinha todo dia era um panelão com ovo mexido sem sal. Um jarro com suco de fruta e outro do mesmo mas sem açúcar. Mas não existe adoçante. Uma chopeira com água quente (pros envelopes de chá) e outra com café, mas um café-carvão, deste brasileiro de sétima qualidade, muito ruim.
A única fruta diferente que encontrei lá foi o pomelo, mas diferente do que tenho no quintal e que é comum no Paraguai, onde é chamado greifo (corruptela de grapefruit) e que se confunde com a toranja. O pomelo de lá tem a forma de cabaça, como uma gota dágua ou certos abacates. É tão grande quanto o outro. O daqui é cheio de semente, polpa verde-água, levemente azedo e levemente amargo. O de lá não tem semente, é doce, quase lima, e amarelado levemente esverdeado. O abacaxi é a mesma variedade havaí daqui. Tive de comprar uma faquinha descascadora porque quando pedi um prato, um copo, uma faca, um garfo e uma colher, a balconista disse que não tem. Recebi só um copo descartável. Imagines! Não tem cabimento um hotel daquele porte dar tal resposta.
Na rua também muito vendedor de limonada e laranjada. São carrinhos levando um aquário quadrado, de vidro, com o suco e muito gelo. Seria uma boa naquele calor, se não fosse açucarado. E panelões com arroz bem amarelo decorado com lagosta. Uma coisa inacreditável é na calçada enormes bueiros quadrados abertos, faltando a laje.
A única coisa que lá é melhor é que em Bogotá muitos lugares, inclusive restaurantes sempre lotados, só aceitam dinheiro, enquanto em Cartagena nenhum recusou cartão.
Todo prato vem acompanhado de mandioca frita e banana-da-terra amassada em forma de disco e frita. Só que parece ser banana de supermercado, madurada forçado, porque não tem gosto. E como em nada põem sal. E de arroz-de-coco, que é o mais típico dali, um arroz cozido com coco, que fica da cor de arroz-carreteiro mas que ressalta bem o sabor de coco. Diz que é uma tradição muito contestada por causa da polêmica em torno do uso de azeite de coco pra cozinhar.
Mas a pior comida de minha vida foi numa esticadinha a Santa Marta, outra cidade turística que não merece a fama. Camarão em pote de barro numa sopa amarela insossa. Se põe sal mas não conserta. O camarão parece que foi cozido dez vezes em água pura, sem sal nem outro tempero. E um copo com chá, com certeza artificial, que só provei. No fim a incômoda sensação de ter comido algo que não é comida, de modo que não tive vontade de almoçar no dia seguinte.
Um dos passeios vendidos pelo hotel é às ilhas do Rosário, ilhas particulares. Escolhi o que seria o melhor segundo a balconista, mais indicado pra quem viaja só: A ilha do Encanto. Na manhã apareceu o guia, um tal não-sei-quê Valêncio, que se diz especialista em mergulho, com atraso de meia hora. Já não gostei do jeito do cara. Moreninho magrela, óculo escuro, tipo homem-de-negro de disco voador, parece irmão gêmeo dum porteiro da saída do Mercadão de Buracópolis, que briga com todo mundo, que eu e Ramão apelidamos Rambinho. Já começou errado porque não foi avisado que o valor do imposto seria na hora e em dinheiro. Numa van, recolhendo mais alguns, a partida da lancha, que batia muito feito jipe correndo em terreno esburacado. Como já estou acostumado à buraqueira de Campo Grande não deveria estranhar, mas é que não sou fitipáldi como os malucos daqui. Vez e outra um borrifo dava um banho no pessoal. Felizmente não era esse o anunciado banho marinho do pacote. O guia que na lancha se anunciou ao pessoal é um tal William. Na hora de atracar a água estava agitada, balançando muito a lancha, por isso decidiram atracar no outro lado da ilha, onde tem uma enseada tranqüila. Dali faríamos uma caminhada ecológica. Não creio que se possa chamar ecológica uma caminhada atravessando trechos alagados de água suja e muito lixo. Os tais donos particulares se esqueceram de que em caso de muita ondulação o pessoal atracaria no cais reserva, por isso seria melhor não limpar só a entrada principal.
Pensas que formamos uma turma unida sob os olhos do guia? Nada disso! O guia sumiu. Fiquei ali como se apenas comprasse passagem. Ali tem um oceanário. Na lancha foi avisado que o almoço começa 11h e que uma sirena tocaria pra avisar que o oceanário abriu. Não me interessei, apenas fiquei tomando banho marinho, que larguei só pra almoçar. Não ouvi sirena. O restaurante formava fila. Não era grande mas muito lenta porque o sistema é de quartel. O prato numa bandeja. Cada funcionário segura uma colherona e serve ao prato. Idêntico ao do gibi do recruta Zero. E a qualidade da comida também como a do cozinheiro Cuca. Primeiro uma série de saladas num prato menor, optando ou um pouco de todas. Depois uma colherada de posta de peixe, fatia de bife, macarrão, a inevitável dupla banana frita e arroz com coco. O tal típico fica só por conta do arroz com coco e banana frita. Muito restrito e muito pobre. Em último a mesa onde se tem direito a optar: Um refrigerante ou água. Sem cerveja, suco, água-de-coco ou mais água. Não tem garção. Se quiser cerveja tem de ir ao bar, noutro lado.
E sou soldado pra comer racionado!?
Depois dessa tremenda desilusão voltei ao banho marinho e só não fiquei abandonado na água porque no fim da tarde desconfiei do movimento no cais e fui verificar. Tive de perguntar o nome do guia pra saber que a lancha já estava quase saindo.
Na volta não era van mas um ônibus. Estava ali o tal Valêncio. O pessoal foi descendo em cada hotel. Mas só entregam nos hotéis de Bocagrande, que é onde o pessoal cismou que é bairro chique. Não sei o quê tem de chique ali. Só porque fica diante duma praia que não é muito confiável pra se banhar? Ou porque os hotéis são luxuosos? Quê mente pervertida acha o hóspede dali mais gente que o do centro histórico?
Se aproximando ao hotel Cartagena Plaza o tal Valêncio quis me induzir a descer ali. Eu disse que não era esse, e sim Stil Cartagena. Se fez de bobo. Quando parou continuou se fazendo de desentendido e tentou me induzir a descer ali. Olhei em firme na cara de Rambinho II e repeti: Não é Cartagena Plaza. É Stil Cartagena! Então disse que só entregam em Bocagrande. Que eu teria de tomar um táxi.
Ou seja: Antes de pagar buscam. Quem já pagou, que se vire!
Isso me fez lembrar quando fui a Natal, em 1997, via Time tour. Pago a vista. O pacote previa uma espera de dia inteiro em Guarulhos. Fiquei em vão aguardando aparecer uma vaga com menor espera. Num passeio uma família do interior contou que estava nessa longa espera mas que apareceu uma mais curta. Perguntei como pagou o pacote. A prazo. A primeira parcela na volta. Nunca mais viajei na Time tour nem paguei antecipado.
No dia seguinte fui ao posto policial responsável por reclamação turística. Era evidente a má-vontade, apesar do simpático atendimento. Pra registrar contra o passeio, só se não foi cumprido. Insisti pra registrar a denúncia, mesmo sem ação, pra constar. Passou no alto, ouvidos moucos. Fomos ver a moça responsável pelo passeio à ilha. Jogaram a culpa na balconista do hotel, quem vendeu o passeio, por não avisar que na volta o cliente não será entregue a hotel fora de Bocagrande. Que teria de falar com a administradora do hotel.
Pra quem não nasceu ontem, deu pra perceber que é uma máfia. O policial pobre-diabo, nada podia fazer, pois estava nas mãos deles. Não adiantaria argumentar. Um taxista disse que nos contratos de passeio não aparece o nome ilha do Encanto. Se escondem sob outros nomes.
Também não adiantaria falar com o hotel, mas a indignação ficou alfinetando. No hotel a administradora nunca estava. Um dia chegaria às 9h, noutro dia 10h. Noutro chamariam no quarto quando terminasse de atender quem entrou à sala. Nada.
Com tudo isso, nada de passeio de pacote mais. E Caribe colombiano, nunca mais. Cartagena é estritamente indicada aos amantes de prédios históricos.
Cartagena é cheia de brasileiro. Almoçando na praça Santo Domingo, no elevador, na rua, tagarelice brasileira. Será por isso a falta de qualidade em tudo? Não creio, pois mesmo nos piores lugares no Brasil a comida ao menos tem gosto, e os passeios não são tão descaradamente picaretas… Acho…
Nas lojas, como a The beer lovers, a livraria Abacus, as de artesanato e restaurantes, não tem assédio.
Numa esquina rente à praça Santo Domingo fica a The beer lovers, uma loja de cerveja importada e artesanal colombiana. Carlos Molina, de Medelim, indicou a Club Colombia, sua cerveja preferida. Um atendente no supermercado Éxito (Éx!to) e a dona de bar que não sabe o quê é chope, em Monteria, indicou a Corona, mexicana, como uma das melhores. Outras sempre presentes ali são Águila e Poker. Tem uma esquisita, que parece refrigerante, a Reds. Na The beer lovers tem cervejas artesanais colombianas com nome de assombração do folclore colombiano, como La llorona, Mohan y Patasola, que decerto tem de tomar com três gotas dágua-benta, três ave-marias e três pai-nossos. A 3 cordilleras tem os sabores negra, mulata, mestiça, branca e rosa.
Aqui se vê a loja dentro:
Algumas diferenças. A estante à esquerda do balcão não tem mais. Virou extensão do balcão.
Na loja tem dez opções de chope. A atendente da manhã, María Paz, disse:
— Quê diferente teu sotaque. Se entende bem mas soa diferente!
Pra mim seu sotaque parece o mesmo dos outros. Deve ser certas nuances que só se sente quando se está muito acostumado.
Minha dedução sobre o estado-de-coisa em Cartagena é que como é uma cidade turística famosa demais, todo vendedor fica lá. Por isso virou um formigueiro. E isso gerou a corrupção turística e o relaxismo geral. Coisa que já acontece em Barcelona.
É necessário uma vasta campanha educacional, pra mudar a mentalidade e eliminar o assédio e a picaretagem. Improvável!
Tudo isso tirou minha vontade de excursionar, visitar museu, etc, de modo que o final dos dez dias foi um arrastar tedioso. Teria abortado a viagem uma semana antes. As noites são ainda mais barulhentas que os dias. No alto ouvia o som das boates perto, até tarde da noite. Se ao menos fosse música boa, mas é pior que axé baiano. Nem isso tem qualidade naquela cidade de loucos. Em duas manhãs a praça foi palco dum interminável e gritado sermão evangélico. E o ar-condicionado eu desligava quando esfriava muito, e religava quando esquentava, pois em todo hotel que tem desses digitais a temperatura é só pra inglês ver, pois 17ºC e 27ºC dão na mesma.
Era muito fácil ir a todo lugar mas difícil voltar ao hotel. Sempre dava muitas voltas até chegar. E o engraçado é que mesmo tentando caminhar em direção oposta à costumeira, sempre acabava desembocando na torre do Relógio.
Uma estrada nova a Barranquilha, ótima mas cheia de pedágio, é particular. Ali não pode trafegar camião. Na beira da estrada, e também rumo a Santa Marta, há trechos alagados tomados por favela, com muito lixo. Muita gente se instala ali, esperando ajuda do governo. É comum encontrar triciclo com cabina, qual pequeno carro. É um novo tipo de táxi. Não há grande coisa de paisagem pra ver. Nos pedágios enormes cartazes avisando ser proibido a presença de vendedor, mas estão ali pra assediar os motoristas. Passando diante de Barranquilha alguns trechos com barreira, pra evitar o povo cruzar a rodovia, mas no geral estão ali. Lotação de todo tipo, como em Cartagena, ônibus lotado até gente pendurada na porta no lado de fora, camionetes com carroceria cheia de gente, sendo veículos de transporte mesmo, como táxi, gente com a perna pendente no capô traseiro, até a baixo do pára-choque. Imagines a mutilação numa batida…
O taxista Abel, irmão de Yesid, morou 20 anos na Venezuela. Disse que Chávez deturpou muito a proposta inicial, que Maduro é muito pior, que o grande erro que cometeram foi dar pensão (como as cestas de Dilma, que acabaram com os prestadores de pequeno serviço), pois o venezuelano é muito folgado, só gosta de se vestir bem, se perfumar, e nada de trabalhar.
Que o grosso do turismo sexual em Cartagena são os italianos, quem já chegam perguntando onde conseguir uma droga e uma garota. Falou sobre os espetáculos de música eletrônica, onde os jovens se drogam com êxtasis. Tem taxista que cobra o que quer quando o passageiro está grogue. Uma vez transportou duas garotas que foram se prostituir em Barranquilha. Queriam fumar maconha no carro. Então disse que pararia na estrada, elas iriam até a árvore a diante. Mesmo assim ficou um odor pestilento. Começaram a se beijar e levaram uma bronca, que ali no carro, não!
Chegando a Santa Marta, na beira da estrada é geral cartaz anunciando venda de fruto-do-mar, que é só o que se vende ali.
É linda a vista da baía chegando a Santa Marta. Vista do alto muito parecida com a da serra do Mar paulista e catarinense. A cidade parece Florianópolis, uma florianópolis feia. Os únicos atrativos de Santa Marta são o banho marinho, ver a baía do alto e a serra nevada, que se via ao longe mas não estava nevada. Carlos contou que na serra Nevada só se pode ir até certo ponto. A partir dali os indígenas não permitem. Fiquei contente com isso, que há indígenas que se preservam da maliciosa e daninha pseudocivilização.
Na volta um engarrafamento gigante, de duas horas, por causa duma batida. Abel já se inquietava, pois no escurecer seria alto o risco de assalto. Um camião conseguiu manobrar e voltar. Imaginávamos um acidente horroroso, de frente, com carros tombados atravessando a estrada. Nada disso. Era só uma camionete que lascou a lateral dum ônibus. Agora vede o absurdo que é o poder das seguradoras, causando todo esse transtorno só pra preservar a cena-do-crime pra facilitar o trabalho dos peritos.
Com alívio abandonei aquele hospício turístico e voltei à linda Monteria. Na volta a bagagem-de-mão em toda esteira de raio-x pediam pra abrir decerto porque os livros pareciam pacote.
A balconista do hotel indicou um lugar com comida típica, El bocachico elegante, onde telhado imita um telhado de palha. Não tem cardápio. O garção recita as cinco opções. Pedi bagre, pois foi o que melhor deu pra entender. Veio um bagre frito cum pedaço de mandioca, outro de banana, limões em metade junto cum espremedor, e um copo descartável, cum canudo, com aguapanela, no caso limonada com canela muito adoçada com panela (tanto rapadura quanto açúcar-mascavo). Achei doce demais e perguntei a uma garçonete, se tinha aquilo não tão açucarado. Disse que não é açúcar, é panela. Hehehe. Tá bom. Faz de conta que açúcar-mascavo não é açúcar. Deveriam deixar o açúcar-mascavo separado pra cada um adoçar como quiser. E deveria ter cardápio impresso, porque não é todo mundo que consegue entender o cardápio verbal. Mas se a superturística Cartagena tá nem aí com qualidade, imagines a obscura Monteria. Não tem outra bebida. Nem adianta pedir cerveja, mas a aguapanela é inclusa no pedido e à vontade. O atendimento é cordial mas muito expresso. https://www.tripadvisor.com.br/LocationPhotoDirectLink-g609136-d2709031-i132219463-El_Bocachico_Elegante-Monteria_Cordoba_Department.html
Na beira do rio Sinu está o parque Ronda do rio Sinu margem direita. É um parque longo, muito arborizado e cheio de vida. Com ciclovia e calçada litorânea como as de beira-mar. Na noite fica todo iluminado. Uma linda imagem foi quando soprou um vento repentino que fez cair sobre as motocicletas passando na rua uma chuva de miúdas folhas amarelas como se a mão dum gigante jogando confete carnavalesco.
Na alfândega de Bogotá, rumo a São Paulo, a policial bogotana resolveu implicar com minha identidade, cuja tinta apodreceu e vazou, deixando a foto um pouco borrada. Ia e vinha e não parava de repetir que tem de providenciar outra. Eu já dissera que já providenciei e não deu tempo de pegar, que estou saindo e não entrando. Bem na saída encontra uma abestada dessa, mas dos males o menor.
Idem. Fui e voltei sem problema com a bagagem, mas justamente a balconista da Avionça, no trajeto São Paulo–Campo Grande, resolveu implicar com o carrinho-de-feira e fez fazer um rearranjo passando coisas duma mala a outra até dar o peso que julgava certo. Cada funcionário um critério. Nesse caso procurava evitar eu pagar mais peso extra. Mas é no mínimo bizarro eu ir e voltar e só ali na reta final aparece um funcionário cricri. Disse que a aeronave é menor que as outras, o carrinho não cabe no bagageiro. Então junto o carrinho a uma mala na base da fita adesiva, uma fita vermelha que manchou tudo. Quando entrei na aeronave vi que era o mesmo que as outras. Caberia muito bem. O bizarro é que tanto na ida quanto na volta na Easyfly, à entrada da nave pedira pra eu deixar guardar o carrinho, e na chegada o deixaram no caminho pra eu pegar. Tão simples! Mas na Avionça é mais complicado.
Já contei o que acontece quando o funcionário força esses rearranjos, quando por isso minha caixa com livro deixou um oco, amassou, virou uma bola, envolveram em plástico-bolha, e por isso eu não a reconhecia e tiveram de a entregar a domicílio. Não em domicílio, como cismaram certos gramáticos, ou melhor, gramáfagos.
Terei de achar uma solução porque o carrinho não tem o guidão retrátil, enquanto as malas assim têm rodas muito pequenas, porque as aerolinhas não param de inventar moda e os funcionários são mais volúveis que mulher de bêbado.
Por sorte não notou que a sacola de papel estava pesada. É que na longa espera em Bogotá achei vários livros irresistíveis na livraria do aeroporto. Como as funcionárias são muito simpáticas eu no vaivém, mostrando e comentando meus livros preferidos que encontrava na estante. Comecei contando que Leyendas, de Gustavo Adolfo Bécquer, foi o livro com o qual aprendi castelhano sozinho, com 16 anos, só lendo, cum dicionário ao lado, que pouco a pouco esparsava a consulta até ficar fluente. Outra maravilha é O homem que confundiu sua mulher cum chapéu, ali El hombre que confundió su mujer con un sombrero, do neurologista Oliver Sacks. Contei que aquele filme do cara que tinha de conquistar a mulher todo dia, pois ela se esquecia, foi tirado do livro, o caso dum marinheiro. Mas que a mais interessante foi duma clínica pra surdo, o pessoal gargalhando ante o discurso do presidente na tevê. A balconista disse que esse livro é o que mais vende. Outra maravilha ali, O homem que calculava, El hombre que calculaba, de Malba Tahan. Expliquei como pude a maravilha que é aquele livro, um dos melhores que já li, tentando expressar o quanto é rico em enredo, matemática e sabedoria. Nisso uma funcionária se tornou minha aluna remota de português, pois disse que há tempo tentava aprender mas não deu.

 
Esta é uma coleção capa dura de Condorito, faltando apenas os volumes 1 e 2
Condorito é um gibi gozado, já que não existe uma condorópolis, como a Patópolis da Disney, sendo si e seu sobrinho os únicos não-humanos. E em vez de namorar uma condor namora uma humana!, Yayita.

Encontrei o volume 1 de Colombia sobrenatural
Os volumes 1 e 2 são muito interessantes, duma pesquisadora espanhola Mado Martínez, que visita os lugares e entrevista pessoas. Os fantasmas do museu naval e demais assombros de Cartagena, o fantasmagórico restaurante La bruja, de Bogotá, o fantasma que presenteava manga. Uma contribuição e tanto ao folclore e ao estudo parapsicológico.

Coleção de cartão-postal de Joanco
O próximo calendário coincidente é o de 2021





Excelente página com o mapa do avanço sírio, atualizada a miúdo



quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Crônica joão-personense

Crônica joão-personense
Nunca temi o longo braço da lei mas sim a lengalenga e a longa língua do povo
A saudade ao mar e os estrambóticos lanches aeronáuticos Musa laxante e projetista bate-bate E recrudesce o golpe da maleta Avisos macarrônicos Como no universo dísnei, de bicho-gente e bicho-bicho, gente-gente e gente-bicho O mistério do caranguejo engarrafado Sem frio, raio, frescura nem festa julina Um banho 3-em-1 Natal derrubada e Maceió esquisita Mais comparação ônibus-avião Cinto, sinto muito! Passagem aérea é especulativa No labirinto, camiseta em João Pessoa e Lisboa em camisa Espelhos e expelhos A praça do Sebo não tem sebo As arapucas internéticas Balança mas não cai
Muita saudade de banho marinho, que é uma aventura, pois é um desafio achar uma praia própria pra banho. Com praia urbana, João Pessoa é uma opção atraente. De quebra uma ponta de festa junina e uma esticadinha a Recife, a 100km, tipo Campinas–São Paulo. Como a passagem aérea estava mais barata a Recife, fui dali a Jompa em ônibus.
Até agora, a Avianca (Parece nome russo mas é colombiana. Seria anca da ave?) é a melhorzinha em lanche. Um sanduíche decente e quentinho. Nada daquelas comida-lixo, como os saquinhos tipo pseudo-batata-frita da Azul nem as horríveis balas da Lã-Tã-Latã. Mas de bebida nem a água, que deve estar envenenada por flúor.
As aeronaves parecem ser mais novas, não aqueles calhambeques chacolejantes da Aerolinhas Argentinas, se bem que num dos vôos travou todo o sistema de vídeo. Reiniciou n vezes, e nada. Passa uma série de propaganda e depois libera as opções. Pior que no Iutube, pois não se pode desligar a coisa durantes as propagandas. Então tive que aturar a cara da Galisteu, eterna musa do iogurte laxante. Mais uma que ficaria em palpo de aranha se o fabricante se envolvesse em escândalo.
Deveria ser proibido fazer propaganda paga, assim como é proibido receber dinheiro pra doar sangue. Quem louva um produto porque é pago pra isso é um picareta, assim como é ladrão quem pega algo emprestado e não devolve.
A conexão foi Brasília. Na descida o comandante do vôo avisou que as malas estariam na esteira 3. Não era. Era na 6. Mas eu não tinha de pegar mala ali, pois a bagagem ia direto. Tanto melhor. Mas nisso senti mais vontade de dar uns cascudos no projetista.
Uma vez comentei com Ramão e Emiliana sobre como os funcionários tratam a bagagem, ao ver como um carregador tirava as malas da carroça e jogava à esteira com raiva, como se fossem fardos de feno (O mesmo num camião do correio noutra ocasião). Pois parece que um desses carregadores ascendeu na função e virou projetista de esteira-de-bagagem, ou projetava aqueles carrinhos de bate-bate de parque-de-diversão, e inventou a esteira Cataratas. E não é de Foz do Iguaçu. Nas esteiras em Brasília a mala desce do teto. Em vez de desembocar suavemente à esteira horizontal, o que se faria com menor ângulo (ou seja, não tão vertical), cai da altura de cerca de 1m, batendo forte na lateral da esteira, bum! Eu, hem?! Só fico torcendo pra que esses projetistas de esteira e de carrinho pra carregar bagagem não subam ainda mais na função e virem projetistas de avião.
Aeroporto, rodoviária e xópim são os lugares mais incômodos, chatos, bregas, feios e com os produtos mais caros e de menor qualidade, de modo que quando menos se permanecer ali, melhor. Se num ponto da cidade tem uma lanchonete boa cuma filial num xópim, difícil a xopinesca ter a qualidade da matriz.
Ali tá pior que no de Guarulhos o golpe da maleta de brinde: Fingir que dá uma maleta de brinde e conseguir empurrar uma assinatura de revista vagabunda. Estão muito ostensivos, quase coercitivos. Vão te cercando. Não sei se é um funcionário da segurança dando um alerta. Muito chato. Parecem aquelas crianças vendendo navalha múltipla e chave-de-fenda múltipla. Uma vez um cunhado não quis saber, então os moleques bateram palma em coro cantando uníssono Panduro, panduro, panduro!
No começo de tarde a chegada a Recife. Na esteira um adesivo em português, inglês e castelhano, pra ter cuidado com a esteira. Castelhano macarrônico: Atentión! É a velha questão da placa, faixa, fachada, etc, com erro que ninguém vê.
Acho graça de coisas mal redigidas, como É proibido fumar durante todo o vôo. Então se fumar só durante um trecho não tem problema? É como aquela frase Estar a mulher que ama. Mas não quis dizer Estar com a mulher amada?
Mas tem português macarrônico também.
Embarque imediato pelo portão 11. Então o portão ia embarcar e não pôde, e o pessoal embarcará por ele?
— Oi, pessoal, sou o portão 11. Minha filha, portinhola 11 está doente. Por isso não posso embarcar. Pode todo mundo embarcar por mim?
Outro era numa barraca da Lo voglio, com as mentiras de sempre:
Gelato natural. 0 conservantes, 0 corantes, 0 gordura hidrogenada
Se é zero tem de ser singular. E por quê só a gordura no singular?
Noutro lado: Como pode ser natural se é feito por alguém? Um sanduíche natural seria se fosse fruto duma árvore, a sanduicheira, por exemplo. Á! Ta! Com ingredientes naturais, quer dizer.
A corrida de táxi oficial do aeroporto à rodoviária deu R$100. Chovia muito em Recife. O inverno nordestino é como o amazônico: Em vez de ser época de frio é de chuva. O céu todo encoberto, uma abóbada cinza, como em Lima, só que mais escuro, e o dia nada claro, como no crepúsculo. O inverno é a temporada chuvosa mas neste 2017 choveu mais que a média.
No nordeste não existe frio, exceto nas localidades montanhosas, onde esfria por causa da altitude. No litoral não tem seca, que é flagelo do interior. É como no sul, onde o litoral não é frio como o interior.
 Comecei a perceber que fui infeliz na escolha da data. Restava torcer pra que Jompa não estivesse chuvosa igual. Improvável por ser tão perto mas, quem-sabe?, Recife seja um microclima como Sampa.
Na escola aprendemos que são quatro estações. Ficamos condicionados ao simplismo de associar verão a calor e inverno a frio como se fosse um fenômeno mundial.
A meio-caminho ao guichê da viação Progresso fui interceptado por um indivíduo oferecendo a vã dum colega ao lado, mais barato que o ônibus, já tá saindo, patati-patatá. Arrepiei. R$37 o ônibus. Cai fora!, caipora. O ônibus quase vazio. Os três passageiros fomos conversando a viagem toda. Um não parava de lamentar que por 10 minutos perdeu o último ônibus e terá de pernoitar em Jompa. O outro esteve no Chile. Falei sobre a Colômbia. Disse que não cogitou porque é pobre e rústica como a Bolívia e o Paraguai. Eu disse que isso é estereótipo. Que pra passear a Colômbia é ainda melhor que o Chile, e que o Paraguai é muito melhor que Uruguai e Argentina (Exceto Cidade Leste, hehehe).
Nada de paisagem excepcional. Na periferia muita favela no morro. Nalguns pontos enorme extensão de lona negra estendida pra conter a erosão. Em 2007 era Recife a cidade mais violenta do Brasil, hoje deve ser a segunda ou terceira.
Na saída da rodoviária de Jompa esse segundo companheiro de viagem consultou no celular o uber ao hotel, no centro, minha reserva. Chamei o taxista, quem disse que esse hotel é muito ruim, que fica junto a um puteiro, no centro, área perigosa, deserta e insípida, boca-do-lixo, onde nada se tem pra ver ou fazer. Que melhor ficar na praia, área turística, onde está todo o agito e se pode passear na noite sem preocupação. O outro viajante concordou, que era isso mesmo.
Sim que a gente fica meio assim-assim em situação assim. Escolhi a não-teimosia e acertei. Já noite, passou na área e mostrou a feiúra e escuridão do local. A área da lagoa Sólon de Lucena, aonde fui duas vezes, pois tem os dois únicos sebos da cidade, um grande e um minúsculo, e comprovei que realmente nada tem, nem restaurante apreciável além do que fica no parque da lagoa, que é excelente. Ali tem uma casa de importado, onde comprei um carrinho-de-feira com o qual resolvi um problema de logística: Tem vez que uma visita aos sebos me deixa com muito peso. Com o carrinho, cinta de sacola e elástico de motoqueiro esse problema foi eliminado.
Chegando à pousada dos Anjos, a duas quadras da praia, anoitecer, como não tem elevador preferi não ficar no terceiro andar e sim no primeiro, bem na cara da portaria e com todo o barulho das conversas. Caso eu achasse ruim bastaria pedir pra mudar. Não mudei. Fui bater perna na área. Já de cara um choque cultural, um catador de sucata puxando a carroça rua a baixo, ao cruzar:
— Boa noite!
— Boa noite!
E não é só esse. O pessoal ali dá bom-dia com naturalidade. E responde! Não com aquela cara de bunda do pessoal daqui, achando um saco despertar da hipnose e encarar um estranho, pois em Campo Grande só conhecido é gente.
Claro que no hotel não. Ali é aquela babaquice geral. Penso assim: Cumprimentar as pessoas é uma mostra de reverência e respeito. Mostrar que os reconhecemos como gente, não como bicho. Mas quem se comporta como bicho como bicho será tratado. Afinal, e morreria de vergonha se empinasse o nariz e então passasse mal e tivesse de ser acudido por aqueles a quem considero bicho. É assim que penso quando me deparo com gente tosca:
— Aé, né? Se passar mal não é quem está perto quem te socorrerá? E se precisar de informação não terás de desempinar o nariz?
A área turística é bem restrita, pequena e interessante, prum passeio de no máximo cinco dias. Não chovia no dia da chegada, assim pude percorrer vasto trecho na orla.
Uma pequena galeria com lojas de produto artesanal e banca de comida, com cuscuz e tapioca, uma infinidade de cachaça artesanal, de todas as marcas, licor e doce. Jaca em calda, licor de pitomba, rapadura enrolada em palha tal qual pamonha. Mas cerveja artesanal não existe ali. Tem uma cachaça cum caranguejo dentro. Outra com caju. O sabor da cachaça curtida com caranguejo não é agradável nem desagradável. Vale pela curiosidade. Prefiro o contrário: Almoçar caranguejo ao molho de cachaça. Não sei como puseram o caranguejo ali. Aqueles famosos navios na garrafa pode ser que seja desmontado, mas o caranguejo tem de ser inteiro. Será que sopram a garrafa, na fabricação, já com o caranguejo? Só pode! Já vi na tevê com cobra e com escorpião, mas com caranguejo é nova.
Aqui explica como colocam:
Numa dessas galerias é o centro cultural, onde, rente à calçada, com som alto e muito agradável, sucessão de músicas juninas, forró, etc, um grupo dançando quadrilha. As moças com saias coloridas. Empolgante. Foi a melhor surpresa da viagem, pois havia muito não via festa junina de verdade, só as muito toscas, descaracterizadas e ensurdecedoras de Campo Grande.
— Taí! Já valeu a viagem!
A festa junina ficou nisso, pois era 24 de junho, dia de são João, feriado pessoense e encerramento das festas juninas. Aqui no centro-oeste temos as festas juninas e julinas. Pra fugir da concorrência ou aproveitar as férias de julho o São-joão se estende até julho. Lã não. Lá não existe o vocábulo festa julina. Encerram o São-joão no dia de são-joão e ponto! Igual encerramos o Carnaval na Quarta-feira-de-cinza.
João Pessoa e Campina Grande são meio como Campo Grande e Corumbá. Carnaval em Campo Grande é fraco. Carnavalesco campo-grandense vive de teimoso. Em Corumbá é o melhor do estado. Pois é só encostar numa barraca e ouvir alguém suspirando:
— Ai! Queria estar em Campina Grande.
Uma cliente da barraca, quem suspirou assim, disse que hoje tem o espetáculo da Elba Ramalho em Campina Grande. Que é só lá que gostam dela, em Jompa o pessoal não gosta porque fala mal da Paraíba, que por quê mora aqui então?
Fico muito desconfiado com esse negócio de maior São-joão do mundo. Coisa muito grandiosa e badalada me deixam com pé atrás. Além do quê evento concorrido demais é caro e tumultuado. Há muito já tirei da cabeça ir a carnavais como Olinda, Rio, ou mesmo o boi-bumbá de Parintins. Alta temporada não é minha praia.
O forte ali é camarão e água-de-coco. R$2,00, R$2,50, R$3,00 a água-de-coco. E o bom é que não tem frescura. Mesmo restaurante chique serve água-de-coco e não te barra por estar de bermuda, como em Curitiba. Por isso é até salutar uma crisezinha pro pessoal deixar a frescura de lado.
Há pouco Ramão e Emiliana foram a Fortaleza. Diz que o pessoal lá não conhecia lagosta e só passaram a apreciar quando na ocupação francesa os franceses ensinaram. Os frutos-do-mar que vemos no litoral, exuberantes, em Campo Grande são caríssimos. Caríssimos, não. Nem tem. Só tem esses camarõezinhos de supermercado, o mais comum. Eu disse:
— Quê-diabo de vantagem temos em ser o mesmo país? Só de não trocar moeda, não passar alfândega nem ter de tirar visto e ou passaporte. As mercadorias deveriam circular no país todo com pouca diferença de preço. Mesmo no Mercossul. Só há a vantagem de visto. Os correios não se integram, e uma encomenda custa o olho da cara, seja o governo que for.
 No domingo começou a ficar chuvoso. Mas uma chuva diferente, umas chuviscas fortes durante um minuto, quinze minutos depois outra. Num momento a chuvisca forte veio com vento, me fustigando areia nas costas. O engraçado é que ali, onde está o marco do ponto mais oriental das Américas, não venta tanto quanto Natal, onde o garção na praia vinha cum prato ornamentado com alface na borda, e quando chegava a alface já voara toda.
Na altura da pousada o mar é impróprio pra banho. Percorrendo ao norte, no fim o calçadão muda de pedra a uma lajota, muitas faltando, onde vai ficando deserto. O lance é ir na direção sul, Tambaú e Cabo Branco. Indo o mais longe possível, na altura do hotel Solemar, descendo na areia no fundo duma barraca, um ponto semideserto, onde deixei a sacola num banco sob um guarda-sol. Ao lado outro guarda-sol onde pouco depois apareceu uma família. Passamos a tarde ali, dia de céu encoberto, plúmbeo, com chuva esporádica e mar bravio. E eu feliz feito pinto no lixo, matando a saudade de banho marinho.
Na segunda fui aos sebos. A loja perto do sebo Cultural é uma versão chique do sebo, pros incautos e apreciadores de livro novo. Os mesmos livros da loja-sebo, muito mais caros. Abre às 10h. Em Jompa e Recife as lojas em geral abrem nessa faixa, 9h, 10h.
Como no Chile e na Colômbia, tudo abre tarde, na base de 9h, 10h, pensei que não é por acaso que a cadeia de banca-de-revista de lá se chama Viña-del-Mar. Estranhei o nome, duma cidade chilena na outra ponta do continente, onde tomei meu primeiro banho marinho no Pacífico. Na praia tem uma, e no bate-perna encontrei mais duas. Uma atendente explicou que não é dono chileno nem tem chileno no meio. É o nome do edifício onde ficava a primeira banca.
O sebo Cultural é bem grande e na entrada tem uma lanchonete, que foi a única que não tem água-de-coco. Deveria se chamar sebo Labirinto, de Minos ou do Minotauro, pois os corredores resultam em verdadeiro labirinto. É um sebo que não emporcalha capa do livro com adesivo de preço e logo da loja. Almoço no restaurante da Lagoa, camarão e lagosta com purê-de-batata e arroz, e água-de-coco, claro, já voltando com o carrinho-de-feira, portanto sem preocupação com o peso da sacola.
Na janela do caixa, na direita umas camisetas penduradas em cabide. Numa, branca, estava escrito Voto nulo. Eu disse à moça do caixa:
— Esse é dos meus! Voto nulo enquanto o voto for obrigatório.
Então na direita soou a voz do dono da loja, assomando a cabeça:
— Queres ganhar a camiseta?
— Quero! Farei campanha em Campo Grande.
Ganhei a camiseta. Minha idéia é complementar o dizer, no estilo Jânio Quadros:
Voto nulo
porque fulo!
Um livro raro encontrado foi Lisboa em camisa, de Gervásio Lobato, comédia de costume portuguesa do final do século 19. Em 1960 fizeram uma série portuguesa tirada do livro. Podeis assistir:
Lisboa em camisa
Em camisa é uma expressão lusitana: Na intimidade, sem afetação social, de chinelo.

Este é sobre o assassínio a João Pessoa, verdadeira tranqueira. Já falei sobre a bobeira de ter um tranqueira como Antônio Maria Coelho como nome de rua. Pois João Pessoa é muito pior.


Primeira-dama da política local conta gafes suas, alheias e outros relatos

 Outra coleta de causos na política pessoense


Crônicas e causos do carnaval pessoense


História e percalços do bloco carnavalesco pessoense Picolé de manga


A pedra que canta
Contos de ficção-científica de autor pessoense. Só estranhei o contraditório título dum conto: A neoescravocracia advinda. Como podem os escravos governar? Mesmo assim permanecem escravos?

Durante toda a estadia em Jompa só usei bermuda, sandália e camiseta. A chuva recrudesceu a partir da quarta-feira. O rosto já estava vermelho na chegada, piorando na praiada de domingo. Por isso tive de passar filtro solar, pois serve também como hidratante, ajudando a recuperar a pele corada. Mas bobeei em não pedir o pra rosto. Então tive de suportar duas vezes o terrível incômodo de escorrer e irritar os olhos. Passei esse incômodo no dia seguinte no sebo do Anacleto. Realmente, nenhum restaurante expressivo além do da Lagoa. Então almoçar na praia.
Encostado no muro da orla o restaurante Bahamas, imitando uma choça de palha. Excelentes pratos de fruto-do-mar, água-de-coco, chope. Garções simpáticos. No caixa um garção mostrando no celular uma foto duma modelo num maiô imitando a pele masculina bem peluda. Rimos muito aludindo à canção de Luiz Gonzaga, Paraíba masculina. https://www.youtube.com/watch?v=69rv13vRK98
Como estava chuvoso demais fui pesquisar o valor duma passagem aérea pro dia seguinte, abortando a volta no sábado, por causa da chuvarada. Em Jompa já estava tudo feito, e em Recife nada a fazer com tanta chuva. Não compensava porque passagem encima da hora é muito caro. Melhor encarar a volta via Recife.
Então na chuvosa quinta-feira fui ao segundo banho marinho. De bermuda de malha, que serve de calção-de-banho, camiseta de malha e sandália, levando só uma sacola de supermercado dentro doutra, com apenas um cartão de débito, o filtro solar e R$11, subi a orla em direção sul, sem me importar com a chuva, a um ponto diferente do de domingo, não no fundo duma barraca-restaurante. Como era meio de semana e sem restaurante perto, estava bem mais deserta. Antes de atravessar a areia pus a sandália na sacola. Meu plano era enterrar a sacola na areia mas com a chuva o buraco na areia se inundava. Então deixei na beira da arrebentação. Supérfluo enterrar porque estava muito deserto.
Ali a onda era melhor, não tão forte quanto no ponto de domingo. Ali fiquei pulando onda, mais feliz que gato na caixa. O céu encoberto, plúmbeo, como Lima em junho, e o mar cinzento, cheio de alga. Esporadicamente uma rajada de chuva, mas nada de raio, pois não vi raio nem ouvi trovão em toda a estadia em Jompa e Recife. Parece que o nordeste não é terra de raio. Quando chegava um lote de chuva os edifícios altos, ao longe, na esquerda, ficavam envoltos em névoa, vaporosos como num filme do expressionismo alemão. Um banho 3-em-1: Mar, chuva e sol. Não levei relógio. Só dava pra avaliar a hora olhando a posição do Sol pelo brilho na nuvem cinzenta quando parava a chuva. Um idílio de solidão total porque as pessoas meteram na cabeça que banho marinho tem de ser com sol, esquecendo que ali a água é sempre morna. Solidão só ofuscada por duas vezes um trio caminhando ao longo, longe. E por um casal em estranha cena. Ela filmando na ponta da calçada, ele em pé, de perfil, com pose que quem fará pipi… Um instante, e se foram.
Minha receita pra quem mora longe da praia matar a saudade:
Passar filtro solar, pra ficar com o cheirinho que faz lembrar praia. Fritar camarão e tomar uma água-de-coco com canudinho. Pra matar a saudade de pular onda, pegar o carro e passar correndo os quebra-mola.
Passeio completado, driblando a chuva, na noite, numa praça-de-alimentação na orla, um pastel de camarão e, claro, água-de-coco. No caminho o restaurante Canoa de camarão cuma promoção de rodízio de camarão a R$76. Já ia passando e voltei.
— Não perco essa.
Fez lembrar o Mar e terra, de Curitiba, em 1992.
Voltei ao hotel driblando a chuva. Quando apertava me abrigava sob alguma marquise. Teve um momento em que a água começou a descer na calçada, quase chegando aonde eu esperava. Uma mulher chegou pra se abrigar exclamando:
— Ai, que frio! Ai, que frio!
Achei muita graça. Se aquilo era frio… Mas certamente num país frio o pessoal também acharia graça de meu conceito de frio.
Quando começou a chover mais tinha esquina cuja calçada ficava alagada, obrigando a andar na rua. No calçadão da orla muita poça dágua, pois em muitos pontos formava barriga, retendo água. A prefeitura pessoense deveria caprichar mais numa área turística tão pequena. Decerto o engenheiro de lá deve ser da mesma escola dos que fizeram o mirante no parque das Nações indígenas.
Minha idéia era ir embora na quinta-feira às 5h, pra pegar o primeiro ônibus e otimizar a manhã em Recife. Mas como os nordestinos abrem tudo tão tarde e com a chuvarada sem parar, não adiantaria.
O taxista contou que a época mais barata pra visitar Jompa é imediatamente após acabar o Carnaval, quando cai em fevereiro. Que Natal era excelente mas que um prefeito que teve lá fez muito estrago que derrubou o turismo, e é procurado pela Interpol. Que acha Maceió muito bela mas cidade muito esquisita.
Mais comparação entre avião e ônibus: Ambos exigem cinto-de-segurança. Não sei por quê em carro, ônibus interurbano e avião se é obrigado a usar o tal cinto mas nos ônibus urbanos o pessoal vai em pé espremido feito sardinha na lata, e mesmo pros sentados não tem cinto. É como as pessoas proibidas de fumar mas as fábricas podem exalar toneladas de fumaça.
As sacolas de viagem não são impermeáveis e parece que os bagageiros de ônibus também não. Então melhor forrar as sacolas com plástico dentro. Em Foz tive um livro capa-dura que chegou a umedecer a capa, o mais embaixo, sem prejuízo. Chegando a Recife a sacola que ficou em borrifou água acumulada encima quando o atendente pegou, sem chegar a molhar dentro. A grande vantagem do ônibus é que não pesa as malas e não tem aquela maçante palestra de segurança à qual ninguém presta atenção. Duvido que se acontecer emergência alguém se lembrará dalgum item daqueles. Talvez só das poltronas supostamente flutuantes. Serão certificadas pelo corpo-de-bombeiro? ISO não sei quantos mil? A mesma bagagem a Avianca cobrou R$160 por 8kg de excesso de bagagem! 20R$/kg!
Agora conseguiram cobrar a bagagem separado da passagem. Logo-logo conseguirão cobrar também a passagem por quilo de passageiro. Então melhor fazer dieta antes de viajar.
Outra diferença gritante é que os outros meios de transporte, ônibus, trem, navio, têm o valor fixo da passagem, o que facilita muito ante imprevisto. No aéreo é uma especulação descarada, tipo bolsa de valor, cotação a dólar, sei-lá. Além de não ter critério pra cobrar excesso de bagagem, a passagem encima da hora fica o olho da cara, o preço varia conforme a temporada ser baixa, alta (férias e feriados) ou altíssima (Carnaval). Se tivéssemos um governo nacionalista, forte, sério e competente haveria leis contra esses abusos e uma aerolinha estatal pra defender os interesses do povo. E se houvesse trem-bala singrando o continente haveria concorrência de verdade.
Chegando a Recife a reserva era no motel Sobrado. Motel mesmo, cuma parede toda espelhada. Não sei qual é a graça pra quem vai até lá pra pra pra prará praprá, mas não sou muito amigo de espelho, ainda mais que sei que em lojas os espelhos são sempre suspeitos, pois a segurança gosta de usar vidro espelhado pra monitorar o público. E há motel que filma os hóspedes, pois há um mercado-negro de filminhos pornô pra vuaiê.
Num vidro espelhado a luz tem de atravessar o espelho, pra quem está na sala 2 ver a sala 1. Então tem de haver modos de detetar e ou acusar esse fenômeno.
Eis uma forma de detetar quando é vidro espelhado e quando é espelho verdadeiro.
Aproveitando o taxista dei uma corrida até a praça do Sebo, que não sei por quê tem esse nome, pois não é ali que ficam os sebistas mas duas quadras depois, que na verdade são só dois ambulantes que expõem na calçada. Coisa mais mixuruca. Marquei com o taxista meia hora num ponto de ônibus. Enquanto esperava, um ambulante de cedê tocava umas canções góspel pra lá de brega ao máximo volume. Eta, poluição sonora! Sou mesmo perseguido por disquejoqueiros malucos!
A conclusão é que não se deve confiar demais na internete. E não falo só sobre dicas turísticas. No mapa aparece muita livraria que aparece como sebo mas não é, algumas não existem e outras é o endereço que não existe. Fui à Gira-livro em Jompa. Era uma casa residencial. O cara explicou que eram só livros didáticos e alguns bestséleres que recebia como doação e disponibilizava pra doação. Eu disse que tem de avisar os portais que ali não é sebo. Respondeu que isso poderia diminuir as doações.
Cuidado também com os portais de gerenciamento de hotel. A pesquisa é hotel e aparece motel, hostel e outras variedades. Como o caso que contei em Assunção, onde a dona do tal hotel mandou mensagem dizendo que não estaria aberto naquele horário porque não é um hotel!
O atendimento do motel Sobrado é muito simpático e solícito. Tem telefone no quarto, o que a pousada dos Anjos não tem.
Na manhã seguinte a chuva pausou. Só o que tinha perto era o xópim Rio-mar, nome por causa da região ser a foz do rio Capiberibe. Dos males o menor.
No guichê da Avianca, pra pagar o excesso de bagagem, um atendente desconfiou que o casal que entrou à fila queria fazer chequim:
— Se for chequim é ali.
Foram. Continuou:
— Vê se pode! Vira-e-mexe e o pessoal acha que o despacho da bagagem é aqui. Cadê a esteira? Cadê a balança?
A colega, apontando uma plataforma no canto oposto:
— Já responderam que aquilo ali é a balança.
Eu disse:
— Sem esteira nem balança é porque decerto estão enxugando custo. Colocarão os funcionários que freqüentam academia pra arrastar as malas e pesar com aquelas balanças de mola com gancho na ponta. Assim se exercitam de forma produtiva em vez de se exercitar a toa.
E assim ficamos rindo da coisa.

Coleção de cartão-postal de Joanco
 



Chegou o livro do mais recente projeto da editora Clock tower
Seriam contos de Arthur Machen, mas na verdade são novelas, ou mais propriamente noveletas.
Esse é um dos grandes autores da literatura mundial. Não só um literato mas um verdadeiro iniciado. Nas obras de Machen se descortinam autênticos conhecimentos ocultos enredados em trama literária.
Autor imprescindível
 
Arthur Machen – O mestre do oculto

Edição limitada reunindo 9 contos do autor galês, incluindo sua obra mais conhecida, O grande deus Pã e uma série de extra incríveis.
A editora Clock tower, responsável pelo lançamento de O rei de amarelo e O mundo fantástico de HP Lovecraft, lançou recentemente o livro Arthur Machen – O mestre do oculto, primeira obra mais completa em português reunindo obras do autor. E a editora tem plano de seguir com livros de Machen, uma vez que têm material já traduzido pra mais 2 livros.
Arthur Machen foi um escritor e jornalista galês, conhecido por suas obras sobrenaturais e de fantasia. Seu conto mais conhecido, a novela O grande deus Pã, está no livro da Clock tower junto com outras obras inéditas em nosso idioma.
Arthur Machen – O mestre do oculto pode ser adquirido com todas as facilidades possíveis na conexão:
Mais informação sobre o livro:
Lista de contos:
1 – A luz interior
2 – A mão vermelha
3 – A pirâmide de fogo
4 – Ao abrir a porta
5 – O povo branco
6 – O pó branco
7 – O sinete negro
8 – O grande deus Pã (novela)
9 – Um jovem brilhante
Apêndice
- Artigo Machen x Lovecraft
- Biografia da equipe editorial
- Nome dos colaboradores
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